08 de julho de 2026
Articulistas

O real e o nada


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O candidato ideal é aquele que as crianças gostariam de ter como pai; as moças como marido; os mais velhos como filho e os avós como neto. O candidato ideal atende ao imaginário dos eleitores. Aquele que é o que gostaríamos de ser e não somos: bem sucedido, bonito, dinâmico, competente, realizador. Os candidatos sabem disso e procuram satisfazer esse imaginário que habita em nós. Se não somos o que queremos pelo menos podemos nos realizar projetando-nos no outro, já realizado.

Com as pesquisas nas mãos, os candidatos sabem o que nos aflige. Todos prometem melhorar a saúde, a educação, a segurança, a oferta de empregos, tapar os buracos, baratear a tarifa de ônibus, dar casas para os sem-teto, e assim por diante. O esgoto será tratado mas não temos água e sem água não há esgoto. “No problem”, como dizem na Jamaica. O erário falido, as principais fontes de arrecadações arrestadas pela Justiça e a alta inadimplência no pagamento dos impostos também não se constituirão em problemas. Dá-se um jeito. Quem sabe contendo o assalto impune aos cofres públicos.

“Todos de sangue bom, patrão” – comenta meu amigo Zelão que está sempre com um Livro de Ouro atrás dos candidatos. Quando não pede para a escola de samba lá do bairro é para o dia das mães, dia das crianças, e assim por diante. Ganhe este ou aquele, está tudo de bom tamanho. Ninguém quer fazer demagogia. São só sonhadores com versões um pouco diferentes... Está certo o Zelão. Thomas Morus (1478-1535) chamava de Utopia a cidade na qual todos os problemas de saúde, alimentação e convivência social estariam resolvidos. A palavra grega “utopia” significa “ainda-não-lugar”.

No diálogo “A República”, Platão descreve a cidade ideal como um complexo sistema onde todos têm um papel a cumprir e podem contar com o trabalho dos outros. A comunidade perfeita é como um organismo em que cada participante contribui para o bem-estar geral. A saúde da cidade só começa a entrar em risco quando todas as tarefas e necessidades básicas já estão sendo cumpridas e começam a surgir megalomanias. Aí que mora o perigo. Entorpecidos pelo poder, governantes adquirem manias faraônicas, querem construir pirâmides, jardins suspensos... Não raro passam a tratar como seu o que é da coletividade. Principalmente o dinheiro.

Platão chegou a pregar que a arte era um desses excessos, fruto de uma sobra de energia. Por isso os artistas não são apenas luxo, mas também lixo, devendo ser expulsos da cidade, para que esta possa continuar a ser uma sociedade justa e feliz (A República, 606a). O filósofo achava que era preciso despertar o senso crítico dos seus concidadãos que consideravam a obra poética de Homero como um manual de conduta para questões morais, administrativas ou do cotidiano. Se vivesse na nossa época, Platão talvez expulsasse a mídia de massa da sua cidade ideal, fonte das informações que são recebidas como se fossem reais. “Não existe fatos, só interpretações”, diz Nietzsche em “Vontade de poder”. Se avançarmos no tempo até Martin Heidegger (1890-1976), vamos chegar à conclusão que a única verdade absoluta é o nada. Então, a mídia, os políticos, todos nós estamos salvos porque não podemos exigir verdade de ninguém se ela é o nada. Ou vamos admitir uma pluralidade de verdades?

Finalmente, Aristóteles conserta um pouco o pessimismo platônico. Considera a arte necessária porque ela provoca um efeito benéfico denominado “catarse”. É aquele processo de purgação dos elementos perniciosos presentes no corpo. A música, o teatro, a poesia, o cinema, a retórica, o debate dos candidatos, quem sabe, são incentivos a que a gente possa sentir fortes emoções, tais como medo, piedade ou entusiasmo. Após a catarse vem o alívio e a sensação do equilíbrio.

Charles Feitosa (Explicando a filosofia com arte), brasileiro envolvido nessa “filosofia pop” que tentamos passar, lembra que na cidade ideal de Aristóteles, a boa convivência entre os habitantes só seria obtida com o equilíbrio da razão com a sensibilidade. Precisamos de um prefeito capaz de exercer essa função edificante e pedagógica. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)