08 de julho de 2026
Bairros

Com medo, moradores 'prendem-se'

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Ir ao mercado sozinha,

caminhar pelo próprio bairro

em que mora e sair à noite

são atividades que já não fazem

mais parte da rotina de

Janete Santos Silva, moradora

do Parque Santa Edwirges.

Há algum tempo, ela

vem mudando seu comportamento

para prevenir fatos desagradáveis.

Conversando com moradores

de diferentes bairros de

Bauru, é fácil encontrar pessoas

que de alguma forma alteraram

seus hábitos por medo

da violência.

“Depois das 22h, eu não

ponho o pé para fora de casa

por nada. A gente não freqüenta

nada aqui no bairro. Eu não

freqüento mercado, bar, nada.

Não vou ao mercado sozinha

de maneira alguma. Tenho

medo”, conta.

Para fazer as compras da

casa, Janete espera o marido

e, ainda assim, não vai ao mercado

do bairro. O casal vai de

carro a um estabelecimento

distante de onde moram.

Como o marido trabalha

durante boa parte do dia, Janete

fica trancada em casa e dificilmente

sai às ruas. No Parque

Santa Edwirges, ela estabeleceu

um perímetro “freqüentável”.

“Quatro quadras

para cima da minha casa eu

nem conheço e nem procuro

conhecer”, explica.

A moradora conta que passou

a tomar mais cuidado depois

que começou a conhecer

a realidade do bairro e da

cidade em que mora. “Antes,

andávamos desinformados.

Quando a gente está desinformada

a gente anda

mais à vontade. Com o passar

do tempo, fui me informando.

A gente passa a conhecer

melhor o bairro e começa

a ficar com mais medo”,

justifica.

Antônio Cabral da Silva,

marido de Janete, também

evita sair à noite. “A gente vê

coisas na rua depois da meianoite

e preferimos não sair para

não irritar os outros. Se

tem algum movimento na rua

e a gente sai, o pessoal já

acha que a gente é curioso. À

noite é meio complicado”,

afirma.

Outro cuidado que ele tomou

foi equipar sua casa

com muros altos, cerca elétrica,

alarme, grades, portão eletrônico

e interfone. Além disso,

colocou a casa no seguro.

“O pessoal está invadindo casas

mesmo com pessoas dentro.

Eu tenho fechadura elétrica

justamente para não facilitar

muito”, diz.

Maria de Lourdes Chiquini

Lopes, moradora do Parque

Jaraguá, decidiu até mudar

de casa e de cidade para

fugir da violência. Ela quase

não sai de casa e por isso mal

conhece seus vizinhos.

“Eu não saio nem de dia.

Vai fazer dois anos que eu

moro aqui e não conheço quase

ninguém. Dá medo de andar

por aí. Tem tantos assaltantes

que dá medo de acontecer

alguma coisa”, explica.

Natural de Garça, Maria

de Lourdes quer vender a casa

em que mora atualmente

para voltar à sua cidade natal.

“Só saímos se precisar

mesmo. Eu saio para ir ao

médico, para ir ao posto de

saúde e para fazer compras”,

salienta.

O aposentado Jurandir

Gavaldão, morador do Jardim

Europa, já deixou de viajar

com a família por medo

de deixar a casa sozinha e

ter uma surpresa desagradável

na volta.

“A gente se preocupa

mais porque tem dois terrenos

vazios ao lado de casa.

Antes, eu fazia uma viagem

uma vez por ano com a família.

Eu deixei de viajar pela

casa”, conta.

Gavaldão, além disso, reforçou

as travas de todas as

portas e janelas da casa.

“Quando sai todo mundo, eu

ponho travas nas janelas e

nas portas para dificultar alguma

coisa a mais. Coloquei

cadeados e substituí as portas

antigas por novas de ferro.

O portão é eletrônico,

mas mesmo assim eu coloco

cadeado”, revela.

Aparecida Fabiano Geanezi,

moradora da Vila Independência,

também tem medo

e evita sair de casa. Ela

sai apenas quando é extremamente

necessário. “A gente

tem um pouco de medo de

sair. Principalmente à noite.

Precisa ter muito cuidado

aqui. Tem muitos roubos e a

gente sempre precisa tomar

cuidado”, reforça.

A moradora sai apenas para

ir à igreja e ao Centro. Embora

more sozinha, Aparecida não

freqüenta o mercado porque

sua filha faz as compras da casa.

“Ultimamente eu redobrei

os cuidados. O bairro era muito

calmo, mas agora está meio

abalado”, afirma.

Também motivado pela

insegurança, Sebastião Aparecido

Eusébio, morador da

Vila Industrial 3, já deixou

até de trabalhar. “Eu liguei

no meu serviço e disse que

não poderia ir trabalhar. Só

para ficar em casa. Quando

eu entro às 22h e fico até de

madrugada eu fico com medo

de voltar para casa e acabo

gastando R$ 5,00 de mototáxi

para evitar andar sozinho

a pé. O bairro é perigoso

e já teve muito roubo”, diz.

Sebastião jamais deixa a

casa sozinha. Quando a família

sai, sempre alguém fica para

tomar conta do patrimônio.

“Quando sai um, fica outro.

Quando minha mulher sai para

trabalhar, eu fico em casa.

Quando ela chega, eu saio.

Não dá para descuidar porque

já tentaram roubar minha casa

várias vezes. A casa não fica

sem ninguém. Dá medo. Hoje

em dia, tanto dentro de casa

quanto na rua está perigoso”,

destaca.

Adilson Soares Alves, morador

do Parque Santa Edwirges,

adota um procedimento semelhante.

“A gente não pode

facilitar. Sempre que alguém

pode ficar em casa a gente deixa

para não ter problema. Mas

quando precisa mesmo sair, fechamos

a casa e pedimos a

Deus para guardá-la.