08 de julho de 2026
Cultura

Diva cool

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 3 min

Há 53 anos, uma cantora de estilo diferente se destacou no cenário da MPB. Seu nome era Adelina Dóris Monteiro, que aos 16 anos estreou na música com o samba-canção “Se Você Se Importasse”. Com sua voz intimista e parecida com a das intérpretes francesas, ela surpreendeu os acostumados a ouvir o tom grave e tradicional da MPB.

Atualmente, apesar de não gravar discos há 22 anos - os últimos foram apenas participações em CDs de outros artistas, entre eles Tito Madi e Casa da Bossa - Dóris nunca deixou os palcos. Prestes a completar 70 anos na próxima quinta-feira, ela comemora sua carreira de mais de cinco décadas de existência cantando, obviamente. “Comecei com o samba-canção e o samba sincopado, depois me inseri na bossa nova. Hoje faço um samba mais balada”, diz, em entrevista concedida por telefone ao JC.

Inovadora, Dóris foi uma das pioneiras da bossa nova, acrescentando seu tom suave e sensual às músicas. “Comecei com 16 anos e minha voz era mais delicada. Sempre fui fã do Lúcio Alves e Dick Farney”, conta. Tanto talento emplacou vários sucessos ao longo de sua carreira.

Entre eles “Fecho Meus Olhos”, “Vejo Você”, “Mocinho Bonito”, “Gostoso É Sambar”, “Samba de Verão”, “Mudando de Conversa” e “Dó-ré-mi”. Num clima saudosista, a maioria dessas canções farão parte do set list do show “Só Dóris”, que a cantora realiza hoje, a partir das 21h, na área de convivência do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Mulher de fibra

Nascida no Rio de Janeiro em 21 de outubro de 1934, Dóris não foi apenas uma cantora avançada. Ela foi considerada uma mulher à frente de seu tempo. Aos 15 anos, decidiu tentar a sorte no programa da Rádio Nacional “Papel Carbono”. Ganhou o primeiro lugar e não parou mais de cantar, estreando no cenário musical com um disco gravado em 78 rotações por minuto (rpm).

Em 1955 Dóris gravou diversas composições de Fernando César, como “Dó-Ré-Mi”, “Graças a Deus” e “Joga a Rede no Mar”. Em 1956, gravou o samba “Mocinho Bonito”, de Billy Blanco. A canção, aliás, foi sua porta de entrada para a bossa nova. Nessa época, a cantora atuou no cinema. Seu primeiro papel foi no filme “Agulha no Palheiro”, de Alex Viany. Em seguida, vieram os trabalhos em “Rua Sem Sol”, também de Viany (1954), “Tudo É Música”, de Luís de Barros (1957) e “De Vento Em Popa”, de Carlos Manga (1957).

Além disso, Dóris gravou mais dez LPs, com destaque para o disco “Gostoso É Sambar”, de 1963. Entre 1970 e 1973, ela lançou quatro LPs ao lado do cantor Miltinho, entitulados “Dóris, Miltinho e Charme”. Na década de 1980 gravou o LP “Dóris Monteiro” (1981), e participou do LP “Dóris, Elizeth, Helena e Ângela Maria”, (1986). Em 1990, a convite de Lisa Ono, viajou ao Japão e realizou shows em Tóquio, Osaka e Nagóia. No ano seguinte, gravou “Dóris e Tito Madi”.

A partir dos anos 80, a cantora passou restringir suas atuações ao palco, se apresentando ao lado do marido, o pianista Ricardo Júnior, que a acompanhará durante o show de hoje.

Energia de sobra

Embora não produza mais discos há tempos, os álbuns de Dóris continuam sendo relançados no Brasil e no Exterior. No Brasil, está em catálogo a coletânea “Dóris Monteiro, que reúne as primeiras gravações da cantora. Por conta do aniversário de 70 anos da diva, a Universal está lançando três CDs dela e a Odeon deve colocar em breve nas prateleiras mais 12 discos da cantora.

Dóris festeja a chegada de seus relançamentos nas lojas. “Sinto-me recompensada porque o público me prestigia e me passa uma energia boa”, revela, com modéstia. Ou não será ela mesma quem transmite essa boa energia nos palcos? Definitivamente, o tom recatado como Dóris descreve seu trabalho não combina com sua expressiva trajetória musical.

• Serviço

Show de Dóris Monteiro hoje, a partir das 21h, no Sesc.