08 de julho de 2026
Articulistas

Ecos do desespero


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Há um pequeno e longínquo país de língua portuguesa chamado Timor Leste ou Timor Loro S’ae no idioma nativo, que significa “lugar onde nasce o sol”. Esta ilha, situada entre a Indonésia e a Austrália, foi palco de um grande massacre, que o mundo não viu, segundo Lucélia Santos, atriz e diretora do filme Timor Lorosae, que narra a barbárie que lá ocorreu. Foi invadido pelos indonésios, em 1975, e a população local foi submetida a um longo e doloroso período de dominação. Um terço de sua população, de cerca de um milhão de habitantes, foi dizimada.

Houve resistência, os bravos guerrilheiros, liderados pelo hoje presidente eleito Alexandre Xanana Gusmão utilizavam as armas dos inimigos mortos ou capturados e com elas empreendiam a luta por sua liberdade. Os indonésios não deixavam a população falar o português e as gerações mais novas não sabem a língua oficial de seu país. Ao serem expulsos, os invasores incendiaram as cidades, deixando o país em ruínas. As fotos das atrocidades estão disponíveis na Internet; não convém mencioná-las aqui.

Nada foi cobrado da Indonésia por este ato de selvageria. Nenhuma ação foi tomada pelas Nações Unidas ou por qualquer outra instituição. Hoje, o Timor segue em reconstrução e necessita de professores de português para ensinar a língua aos mais novos. Se adotar o inglês, será absorvido pela Austrália. Eis a importância da língua pátria, de sua preservação.

Hoje, em outros cantos do planeta, ainda ocorrem atos desumanos contra populações inteiras, caso do Gabão, na África setentrional, onde está ocorrendo um genocídio, uma limpeza étnica, com o assassinato de mais de 70 mil pessoas, numa média de 10 mil por mês. As pessoas fogem da morte em direção ao vizinho Chade. Centenas de milhares sem abrigo e comida. A Cruz Vermelha tem feito milagres, conseguindo água e abrigo para mais de 200 mil pessoas. Onde está a ONU? Cadê os países ricos?

Vistos do alto, os milhares de abrigos brancos em formato de semicírculo compõem uma imagem bonita. Aquela beleza aguda, tonitruante, que também sabe brotar da desgraça. Desespero, luta extrema pela vida. O mundo é surdo aos gritos, que ecoam no nada.

É certo que existe o livre arbítrio, que permite decidir parte do próprio destino em vários aspectos, mas há certas situações que são inescapáveis. Ninguém decide nascer aqui ou ali, numa região sob conflitos armados, como o Gabão, o Timor, o Haiti e tantos outros países. Como poderia alguém que nestes lugares vive desde sempre, pobre, safar-se desta situação sem ajuda alheia?

É neste sentido que todos têm obrigação de ajudar o próximo, estendendo-lhe a mão para que possa escapar de um atoleiro ao qual circunstâncias fora de seu controle o conduziram e do qual é, apenas, vítima.

Neste ponto, o Brasil tem feito o que pode, com suas tropas de capacetes azuis no Haiti, onde a situação está tomando uma configuração perigosa, com os soldados trabalhando 18 horas por dia, aumentando sua vulnerabilidade, dada a diminuição do estado de alerta em virtude do cansaço exacerbado. De certa forma, caíram numa armadilha, porque outros países prometeram enviar tropas e não o fizeram. A China acaba de enviar míseros 95 policiais. O mesmo que nada - bela ajuda da nação de mais de 1bilhão de habitantes.

Extrema ironia, salvadores prestes a se tornarem vítimas. Assim é a vida, o acaso, este grande adversário dos que têm tudo calculado. Por isso, exatamente por isso, todos têm que se dar as mãos de maneira incondicional, porque nunca se sabe que surpresas nos reservam a natureza e as ações humanas.

O autor, Luiz Leitão, é administrador e articulista para os países lusófonos