Para entender as intervenções
urbanas, é necessário
compreender a arte conceitual.
A afirmação é de José
Marcos Romão da Silva,
professor do Departamento
de Artes da Universidade Estadual
Paulista (Unesp) e especialista
em arte moderna e
contemporânea.
“A intervenção urbana está
inserida dentro de um aspecto
mais amplo que se chama
arte conceitual. É quando
o artista abandona os suportes
e materiais tradicionais e
se apropria de outros. Existe
um leque de categorias e manifestações
dentro deste conceito”,
explica.
Um dos principais objetivos
das intervenções urbanas,
de acordo com Romão, é
aproximar a arte das pessoas
que vivem em determinada
sociedade. “É necessário
criar situações de contato
com o público para atingi-lo.
Em vez de esperar que a pessoa
vá a um museu, o artista
desloca sua manifestação artística
para situações nas
quais haverá confronto com
o público”, destaca.
A surpresa de encontrar
uma obra de arte no caminho
para o trabalho ou para a escola,
por exemplo, também
provoca um momento de
pausa e reflexão, em meio à
correria ou banalização do
dia-a-dia.
“Um momento de reflexão
e interrogação. Esse é o
papel da arte moderna - gerar
essa paradinha no cotidiano e
levar à reflexão”, expõe o
professor.
As intervenções tiveram
início em meados da década
de 60, em capitais como Nova
York, Paris e Berlim, a
partir da preocupação com a
deselitização da arte. “É romper
com o circuito especializado
e ir para as ruas. Começa
como uma forma de
oposição ao predomínio do
mercado de arte que começa
a existir no meio artístico.
Foi uma atitude de democratização
que começou na Europa
e nos Estados Unidos”,
afirma Romão.
Um dos artistas que se destacou
na década de 70 foi o
búlgaro Christo Javachef.
Ele ficou conhecido pela técnica
de fazer gigantescos embrulhos
de prédios, pontes e
pequenas ilhas, entre outras
coisas. No ano passado, empacotou
o parlamento alemão,
em Berlim, que passaria
por reformas.
No Brasil, as intervenções
começaram a aparecer
na década de 70. “O problema
é que no Brasil nunca tivemos
grandes projetos que
geraram grandes repercussões
devido ao custo alto. Para
fazer grandes intervenções,
é necessário mobilizar
recursos e pessoal e isso aqui
é mais difícil. Esse tipo de arte
acabou tendo seus principais
representantes nos Estados
Unidos e na Europa por
isso”, justifica.
O professor cita o pernabucano
Paulo Bruski como
um dos principais ícones das
intervenções urbanas no
País. “Ele está na Bienal, faz
isso há bastante tempo e fez
várias intervenções no Recife.
Mas acaba sendo pouco
conhecido no resto do País
por trabalhar no Nordeste”,
avalia.
Ele acredita que, no Brasil,
as intervenções que ganharam
mais espaço foram
os grafites. “Os grafites são
pinturas, obras bem elaboradas,
com autorização e assinadas.
Até onde eu saiba, a intervenção
não tem esse caráter
de coisa proibida. As grandes
intervenções são divulgadas
pela mídia e identificadas”,
argumenta.
Na opinião de Romão, as
intervenções urbanas ainda
aparecem de maneira tímida
em Bauru. Ele destaca a pedra
pintada na avenida Nações
Unidas que ficou conhecida
como joaninha. “É uma
intervenção bem-humorada”,
diz.
As iniciativas das colagens
também são avaliadas como
positivas pelo professor.
Tem bastante no câmpus da
Unesp. Eu não sei porque a
pessoa não assina, mas são trabalhos
interessantes do ponto
de vista artístico, mesmo sendo
feitos com materiais simples”,
avalia.
“É uma forma de intervenção
pública interessante
porque não atrapalha a vida
de ninguém e ao mesmo
tempo chama a atenção das
pessoas. De alguma forma,
impressiona. Para quem está
passando, com certeza a
obra de arte vai servir para
um momento de reflexão”,
acrescenta Romão.