09 de julho de 2026
Bairros

Colagens se espalham por Bauru

Thaís Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

As mais recentes intervenções

urbanas de Bauru estão

sendo protagonizadas por

estudantes da Universidade

Estadual Paulista (Unesp).

Grande parte deles cursa educação

artística.

O cenário observado na região

central do câmpus local

da Unesp, repleto de pinturas

e colagens, foi transferido

em intensidade menor para o

Centro da cidade - principalmente

para as avenidas Duque

de Caxias, Nações Unidas

e Rodrigues Alves.

Os universitários espalham

pelos muros painéis

pintados, de diversos tamanhos

e suportes também variados

- jornal, sulfite, entre

outros. Geralmente, são escolhidos

locais considerados estratégicos

pela grande

movimentação

de pessoas.

Os artistas, que

preferem o anonimato,

afirmam que o

que fazem é street

art, ou arte de rua.

Em Bauru, esse tipo

de trabalho começou

timidamente há

cerca de três anos,

mas intensificou-se

no último ano. Alguns

dos artistas já

faziam intervenções

nas cidades em que

moravam antes de

Bauru.

“Eu gosto de

preencher espaços

de cimento e concreto

com arte. De certa

forma, é embelezar

a cidade. Ainda que

o intuito não seja

apenas embelezar,

mas mudar aquele

concretão”, diz Bianca

(nome fictício),

aluna de Educação

Artística da Unesp.

Ela conta que ingressou

no mundo

das intervenções urbanas

antes de entrar

na faculdade,

quando ainda morava

em Piraju. “Não

foram muito bem recebidas.

Arrancaram tudo.

Não durou nem dois dias”,

conta.

Mas ela não desistiu. “As

pessoas sempre andam pelos

mesmos locais e nunca percebem

as coisas. Um dia, ela se

depara com um desenho naquele

mesmo local que estimula

sua percepção. Por isso

é legal fazer arte na rua. Causa

um estranhamento”, expõe.

Marcos (nome fictício),

outro autor das colagens espalhadas

pela cidade, revela

que tem a intensão de provocar

reflexão nas pessoas que

passam pelos locais das intervenções.

“Tem uma reflexão

dentro da obra. O que eu faço,

eu faço para provocar

uma reflexão, para fazer pensar

mesmo”, destaca.

Geralmente, as colagens

são feitas em muros e paredes

de locais públicos. Como

os autores não pedem autorização

a ninguém, afirmam

que preferem não intervir em

locais privados. “Não colocamos

em casas, por exemplo.

Tem muita cola e a pessoa

tem o direito de tirar, se ela

quiser”, explica Bianca.

O universitário Berê (nome

fictício) conta que sua relação

com as intervenções é

de diversão. “A minha idéia

é fazer na rua por diversão.

Andar na cidade e encontrar

um lazer. E, além disso, criar

um clima de suspense e ironia

na cidade”, revela.

“Eu não faço isso para embelezar

a cidade, para mostrar

engajamento. Eu não pretendo

isso”, acrescenta o artista.

Apesar da afirmação, ele

enfatiza que gostaria de ganhar

dinheiro fazendo intervenções

em Bauru. “Seria

muito legal se alguém quisesse

pagar a gente para fazer isso

em outdoors, por exemplo.

Milhões de outdoors na

cidade”, salienta.

Influenciados por projetos

de intervenções urbanas

como o Arte/Cidade - criado

em São Paulo em 1994 -, os

artistas acreditam que seus

trabalhos são bem aceitos pela

sociedade.

“Nossa geração vive esse

boom de legalidade da arte

pública. Temos o Arte/Cidade

e a acessibilidade do grafite,

por exemplo. Não temos

repressão contra essas coisas.

Antes, não tinha muito

espaço para arte pública. Arte

pública era uma grande escultura

numa praça. Mas esse

conceito mudou e está

muito mais fácil fazer intervenção”,

frisa Berê.

Eventualmente, os estudantes

passam de colagens

artísticas para outros tipos

de intervenções. Uma delas

foi feita em um ponto de ônibus

que ganhou uma espécie

de varal com revistas penduradas.

Em outra ocasião, a universitária

Rosa (nome fictício)

nadou no lago do Parque

Vitória Régia para protestar

contra a falta de áreas de lazer

na cidade. “A arquitetura

do Parque Vitória Régia é

monumental, para ser observada

e só. Não oferece nenhum

tipo de conforto. É só

cartão postal mesmo”, diz.