De um lado da rua, os prédios imponentes das maiores instituições de ensino superior da cidade. Do outro, bares animados com mesas nas calçadas e centenas de universitários conversando, paquerando, se divertindo e tomando aquela cerveja gelada. A situação é encontrada em praticamente todas as universidades de Bauru. Para os estudantes - cuja maioria já tem mais de 18 anos -, o comportamento é natural e não prejudica o desenvolvimento dos estudos.
Em alguns bares, o movimento é maior durante o horário de aulas, principalmente naqueles localizados ao lado das instituições mais distantes do Centro da cidade. Em outros, a ocupação das mesas tem início após o horário do intervalo, por volta de 20h30, e alcança seu ápice após o término das aulas, por volta de 22h30. A reportagem do JC apurou que nos dias mais agitados - normalmente terça, quarta e quinta-feira -, os bares chegam a vender de 20 a 30 caixas de cerveja.
Joy Catib, que é proprietário de um bar e lanchonete próximo à Universidade do Sagrado Coração (USC), aponta que seu público é formado principalmente por universitários e estima que 70% deles sejam alunos da USC. “O restante é de outras universidades, que vem para cá quando acaba a aula, ou o pessoal mais jovem da cidade e que freqüenta os mesmos locais dos universitários. O pessoal que vem para cá é muito sossegado”, diz.
Ele ressalta que o movimento maior no estabelecimento ocorre após o intervalo das aulas. “Normalmente, o pessoal passa por aqui para fazer um ‘esquenta’ e depois vai para a balada, para as festas. Quem mata aula sabe o que está fazendo. Eu acho que cada um tem consciência de seus deveres e tem de correr atrás de suas responsabilidades. Se você sabe que não vai ser prejudicado, a decisão é sua”, argumenta.
Em frente à Universidade Paulista (Unip), diversos bares disputam a fidelidade dos estudantes. Para Fernando Muiños, que é proprietário de um dos estabelecimentos no local, o público freqüentador é responsável pelos seus atos. “São todos jovens com mais de 18 anos, que pagam sua faculdade e querem estudar, mas também querem se divertir. Se eles vão matar aula ou não, é de responsabilidade de cada um”, ressalta.
Ao contrário de outros bares, o movimento intenso no local não se estende até a madrugada. De acordo com Muiños, isso ocorre porque a maioria dos alunos viaja todos os dias para estudar. “Grande parte do nosso público é de fora, das cidades vizinhas, então o pessoal sai da aula, toma uma cerveja e pega o ônibus para ir embora. Não temos problemas com quem vai dirigir depois, porque o pessoal de fora vai embora de ônibus”, completa.
Opção
Na mesa com três amigos, a estudante de letras da USC Júlia Carolina de Lucca, 23 anos, comenta que não vê problema em sair da aula e sentar em um bar. “Estou aqui agora porque sei que não estou perdendo muita coisa se não entrar na aula. Não é a universidade que vai te dar o conhecimento. Tudo depende de você, então, se você perder algumas aulas, se há condições de ir atrás desse conhecimento depois, é você quem faz, não interessa a mais ninguém”, enfatiza.
Carlos Sventickas, 27 anos e aluno de publicidade, explica, enquanto toma uma cerveja, que não está em horário de aula e que não vê esse comportamento dos universitários como um obstáculo para a vida estudantil. Concorda com ele o fisioterapeuta Luiz Augusto Rino, 23 anos, que se formou no ano passado e ainda freqüenta os mesmos locais. “Nossa turma não se desvinculou do pessoal da faculdade, então ficamos aqui para encontrar com todo mundo, inclusive minha namorada.”
Marcelo Pucca, 23 anos e colega de Rino, pondera que a presença de bares próximos às universidades não deixa de ser uma tentação para os alunos. “Você acaba sendo influenciado. Se seus amigos estão indo tomar uma cerveja depois da aula, você acaba indo também. Mas na decisão, a responsabilidade é individual”, destaca.
A turma de Juliana Patrícia Gonzales Guerra, 19 anos e estudante de engenharia mecatrônica, estava quase toda reunida em um bar em frente à sua universidade numa noite da última semana. “Como as provas acabaram na semana passada, o pessoal está sossegado”, explica. Ela afirma que as idas ao bar não atrapalham seu ritmo de estudo e que a atitude de matar aulas não chega a ser comum em seu curso. “O pessoal leva a sério. Quem não quer ficar na aula, nem entra, já fica aqui. Infelizmente, tem sempre aqueles que são mais levados pela bagunça do que pelo lado sério”, lamenta Juliana.
Seu colega Cristovam Peres, 20 anos, argumenta que os jovens que não querem assistir às aulas não dependem dos bares próximos às faculdades para se divertir. “Se a pessoa quiser, ela se reúne com os amigos em outro local. Hoje não tivemos aula, mas acho legal dar uma passada no bar, depois da aula, para socializar, conhecer pessoas de outras turmas. Mas ninguém vem aqui tomar porre, a gente toma uma cerveja só para bater papo e vai embora. Cada um é responsável pelo que faz”, finaliza.