Realmente não dá para entender. Ao mesmo tempo em que existe a lei que proíbe o agricultor destruir e poluir o meio ambiente, outra “lei†foi criada para permitir a destruição das florestas e a queimada descontrolada de cana. E o que é pior, apoiados por alguns médicos e políticos.
Vergonhosamente, essa agressão contra a natureza e a nossa saúde já ultrapassou o limite da tolerância nesses 45 anos de devastação e poluição impostas à população como se fosse uma ditadura.
Aqui na região de Jaú, durante décadas o povo omisso nunca se preocupou com problemas ecológicos e permitiram que muitos agricultores motivados pela ganância e mão-de-obra barata pela colheita da cana queimada devastassem florestas, matas nativas e ciliares que junto com a fauna torrassem até hoje, bilhões de animais.
O Jornal Nacional, da Rede Globo, de 27/7/02, nas pesquisas que fizeram sobre o aquecimento do planeta, comprovaram o impacto que causa ao meio ambiente o desmatamento e o fogo na cana, quando recolheram do meio das cinzas centenas de animais mortos entre mamíferos, aves, cobras, etc... Inclusive nessa lista negra, seres humanos, por morte lenta, com doenças respiratórias.
Agora, os canavieiros estão “preocupados†com a poluição no Japão, Estados Unidos e países da Europa. E no desespero de produzir e exportar mais álcool, para limpar os ares de lá, poluem os ares daqui.
Os dólares ficam para eles, a fumaça, gases venenosos, carvãozinhos e prejuízos ficam aqui para os moradores da zona urbana. Enquanto muito felizes fazem seus passeios turísticos lá fora, aqui centenas de mães desesperadas correm com os filhos pequenos e pessoas idosas para as farmácias, pronto-socorros e hospitais, todos sufocados pela fumaça e gastando parte de seus míseros salários com remédios.
Mesmo assim tem aqueles que afirmam que essa poluição não prejudica a saúde. Que absurdo. Pela lógica não são necessários estudos profundos de médicos especialistas para provar os malefícios que causam aos pulmões. Devemos acreditar naquilo que vemos e sentimos. Os sintomas de irritações nas vias respiratórias e nos olhos, começam logo na hora das queimadas, às 17h, até madrugas, quando a fumaceira envolve a cidade deixando o ar irrespirável.
Dizem os agricultores de cana, que os moradores da cidade são obrigados a suportar este castigo, para garantir o emprego do homem do campo. Pode? Aliás, os cortadores de cana também são vítimas desse terrível mal.
Portanto, chega de “conversa fiada†de que birutas são colocadas em pontos altos da cidade para verificação de ventos para evitar que os carvãozinhos caiam na cidade. Então, de onde será que vem essa maldita chuva negra que emporcalha nossas casas dia e noite durante 8 meses do ano, obrigando a população a gastar mais água para suas limpezas? Será que alguém acredita que a cana produz 200 toneladas de oxigênio por hectares? Desde quando gás cancerígeno é oxigênio?
Ninguém agüenta mais ouvir que é preciso queimar para evitar que bichos peçonhentos piquem os cortadores. (Será que eles trabalham pelados?) Matar cobra, aranhas, lagartos, etc... também é crime, sabiam? Também não é problema da população de que sem a queima tem o ataque de cigarrinhas que sugam a seiva da cana. E daí? Isso se chama desequilíbrio ecológico provocado pelo desmatamento. Afinal, quem foi que escolheu esse tipo de cultura? Será que essas cigarrinhas também sugaram o cérebro de algumas pessoas, que ainda apóiam essa barbárie contra a saúde de milhares de pessoas em troca do enriquecimento de alguns?
A população doente, sofrida e revoltada que era omissa, agora não é mais porque conhecem seus direitos à cidadania e sabem que nossos governantes eleitos com votos do povo, têm o dever de dar um basta nessa falta de respeito que inferniza a todos, durante muitos anos. Têm obrigação de oferecer uma qualidade de vida melhor, de uma cidade limpa, ar puro, com mais áreas verdes, praças arborizadas para podermos pelo menos respirar melhor, valorizando assim o ser humano.
Maria L. Ferreira - escriturária aposentada e artista plástica