09 de julho de 2026
Bairros

Acompanhamento das crianças contaminadas esbarra na evasão

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 3 min

Os esforços da autoridades da área de saúde para atender as mais de 300 crianças residentes na região do setor metalúrgico da Ajax, principalmente no Jardim Tangarás, que apresentaram alteração nos níveis de chumbo no sangue, podem esbarrar no abandono do tratamento.

Segundo revelou o médico Plínio Ferraz, neuropediatra do “Projeto Chumbo”, dos cerca de 15 atendimentos agendados por assistentes sociais semanalmente em sua especialidade, uma média de dez não acontecem porque os pacientes não aparecem. “O problema não é das pessoas envolvidas na organização do projeto. O problema é das mães que não trazem seus filhos”, diz Ferraz.

O “Projeto Chumbo” é uma atividade multidisciplinar coordenada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Bauru, com a participação do Centrinho e da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), através do câmpus de Bauru (psicologia) e Botucatu (medicina).

Mesmo com a evasão registrada em sua especialidade, o neuropediatra destaca que as crianças atendidas pelo projeto apresentam boa evolução em seus quadros de contaminação, Além disso, lembra Ferraz, nenhuma criança atendida apresentou alteração neurológica que pudesse se relacionar com o chumbo.

Para traçar um diagnóstico da situação clínica das crianças, porém, o médico afirma que prefere esperar a conclusão do “grupo-controle” do projeto. O “grupo-controle” consiste no levantamento clínico de um universo de crianças que vivam em condições sanitárias e sócio-econômicas semelhantes às do Jardim Tangarás, tornando possível a comparação do quadro de saúde entre ambos os grupos. Este levantamento será feito a partir do início do próximo ano.

Dentro da proposta de atendimento multidisciplinar do “Projeto Chumbo”, o biólogo e geneticista Ezequiel Miranda, do Centrinho, informa que a unidade estará promovendo em todos os sábados de novembro, à exceção do dia 13, atendimento às crianças do projeto nas áreas de odontologia e fonoaudiologia.

"Preguiça"

A dona de casa Maria Rosa Pereira, moradora do Jardim Tangarás há seis anos, confirmou a informação do médico Plínio Ferraz de que muitas crianças estão deixando de fazer o acompanhamento médico no “Projeto Chumbo” por negligência de seus pais. Avó de um garoto de 5 anos que freqüenta regularmente o programa, a dona de casa que “tem muita mãe preguiçosa” no bairro. Ela garante que seu neto apresentou melhora significativa no seu quadro de saúde depois que começou a participar do projeto.

A desinformação é outro problema no bairro. A dona de casa Maria Helena Vicente diz que sua filha de 28 anos apresentou altos índices de concentração de chumbo num exame realizado há três meses, mas até agora não sabe o que fazer. “O exame deu 112 (microgramas de chumbo por decilitro de sangue), mas agora não sei o que fazer”, admitiu, acrescentando que a filha (nome não revelado) sofre com constantes dores de cabeça e estômago.

O comerciante José Carlos Alves, 51 anos, há 15 anos morador do bairro, tem três filhos que apresentaram diagnóstico positivo para contaminação por chumbo. Mesmo levando-os regularmente para atendimento no projeto, Alves ainda teme os efeitos da situação. Na semana passada, seu filho de 10 anos sofreu convulsões e desmaio, sendo atendido no Pronto-Socorro Central. “Ele fez os exames, disseram que não deu nada e encaminharam para o neurologista. Sabe Deus quando será atendido agora”, disse, apreensivo pelo fato de o menino ter sido um dos atingidos pela contaminação.