11 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: A fidelidade do cachorro pescador


| Tempo de leitura: 3 min

Mais uma vez, participo deste espaço dedicado a nós, pescadores, cedido pelo Jornal da Cidade.

O que vou narrar hoje, não aconteceu comigo, mas cheguei a tempo de testemunhar o ocorrido.

Próximo a Marilândia, às margens do rio Tietê, mora um casal de velhos amigos de minha família, numa chácara herdada dos pais, com quatro filhos, todos casados. Seu Luiz e dona Maria trabalham como caseiros em chácaras na redondeza, profissão também exercida pelos filhos.

Num sábado após o almoço, lá pelo meio-dia, seu Luiz resolveu pescar; com seu velho barco de madeira e seu inseparável amigo, o cachorro Faísca. Após apanhar as tralhas, saiu para pegar alguns pacus, tarefa essa dada pela dona Maria. Ela queria assar no domingo na visita costumeira dos filhos.

Remando seu velho barco, lá se foi seu Luiz. Na ponta, ia o cachorro, o Faísca, muito esperto e inteligente, companheiro de todas as horas, como que procurando o melhor lugar para apoitar.

Na entrada de um braço do rio, parou, jogou a poita, preparou o equipamento e começou a pescar. Uma puxada, lá se foi a isca; outra puxada, outra isca; outra puxada fisgou um pacu, mas era pequeno e ele soltou; a tarde prometia; não deu outra, puxada forte, fisgada certeira, pelo peso era grande, a luta para trazer o peixe foi árdua; depois de algum tempo, lá estava o pacu; era grande mesmo.

Aí outro problema: ele esqueceu o covo. E agora? Como puxar o peixe: segura a linha com medo de puxar e quebrar. Seu Luiz estudava um meio de embarcar o peixe, quando na tentativa de ajudar o dono, Faísca abocanhou a linha e puxou. Não deu outra, a linha quebrou. Seu Luiz tentou pegar a linha, mas não conseguiu, o pacu, ainda cansado, sentiu-se livre e aos poucos sumiu na água. Vendo a tristeza do dono e como sentindo-se culpado, Faísca pulou no rio e desapareceu. Seu Luiz gritou pelo cachorro, de nada adiantou, sumiram os dois.

Eu já tinha chegado na chácara quando seu Luiz apareceu. O que estranhei foi o fato do cachorro não estar junto e a tristeza que ele estava; perguntamos o que tinha acontecido. Seu Luiz sentou-se num banco feito de tronco de árvore e nos contou tudo. “Não é possível”, disse sua mulher, “você está brincando”. Mas era a pura verdade.

A noite começava a chegar e nós sentados no banco conversando e tentando entender o que aconteceu; quando dona Maria viu, no fim da estradinha que dava para o rio, alguma coisa se mexendo. Aquilo foi se aproximando, quando percebemos que era o Faísca puxando alguma coisa. Já escuro, corremos em direção ao cachorro. Para a nossa surpresa, o Faísca vinha puxando pelo rabo um pacu enorme. Seu Luiz abraçou o cachorro chorando enquanto ele lambia seu rosto; dona Maria pegou o peixe e voltamos para casa. Lá chegando, seu Luiz contente com a volta do amigo, dava-lhe comida e dona Maria foi limpar o peixe, para assar domingo.

Ficamos matutando: mas como o Faísca trouxe esse peixe? Na cozinha ouvimos dona Maria dizer, “eu não acredito!”. Fomos ver o que era e aí a surpresa: o peixe que o Faísca trouxe não era um pacu qualquer, mas sim o pacu que havia escapado quando ele, com o dente, cortou a linha. Enroscados na boca do peixe estavam o anzol, a chumbada e o pedaço de linha.

É, nós também não acreditamos, mas estava ali, na nossa frente. Combinamos não contar nada a ninguém, para evitar gozações.

A fidelidade e o amor ao dono fez com que Faísca mergulhasse nas águas do rio para trazer de volta o pacu; impossível para muitos, mas não para nós, que presenciamos o fato.

Agradeço a publicação.

Álvaro Scarço

Pescador e contador de causos verídicos