10 de julho de 2026
Articulistas

Mais quatro anos de medo


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Como se não bastasse o pavor causado pela sempre presente ameaça de atentados terroristas, uma estranha ocorrência vem aumentar sobremaneira as preocupações a respeito do assunto. O desaparecimento de algo como 370 toneladas de explosivos de alto potencial destrutivo; espólio dos armamentos de Saddam Hussein e que estavam guardados - mas não tão bem guardados assim - próximos a Bagdá. O competente exército americano não montou guarda adequadamente e eles sumiram.

Estranha a qualquer um o fato de uma quantidade tão grande de artefatos de destruição possa ter-se escafedido assim, ninguém sabe, ninguém viu... É coisa forte o suficiente para detonar um edifício, derrubar um avião de grande porte (para isto, basta uma mínima porção). Não é preciso muito esforço para imaginar-se o que poderá ocorrer doravante.

Já o Pentágono acredita que a coisa não é tão perigosa assim, e que “não dá para tomar conta de todos os lugares que contém artefatos bélicos espalhados pelo Iraque”. Queira Deus que os gênios que não detectaram o ataque de 2001 às Torres Gêmeas desta vez estejam certos. Não é desprezível a hipótese de que os eventuais detentores deste material estejam planejando usá-los nas eleições americanas. Nem se pode afastar a hipótese de este episódio fazer elevarem-se as cotações do petróleo ainda mais.

Tony Blair, primeiro-ministro inglês, aquele que assiste impassível os súditos de sua majestade serem degolados, está enviando oitocentos e cinqüenta soldados ao Iraque, pois as forças americanas já não estão dando conta do recado. Uma estratégia cega; porque manda o bom senso que se faça uma retirada, enquanto é tempo. Como fizeram os espanhóis. Mas quem é Blair para ter a grandeza de reconhecer seus inúmeros erros?

Não tem esta grandeza, nem ele, e muito menos Bush. Apesar de tudo o que já aconteceu, da obviedade do desastre da operação no Iraque, George, teimoso, obstinado, diz que faria tudo novamente. Não lhe tocam o coração os mais de mil esquifes de militares americanos; um general deve ser duro, deve talvez pensar o grande gênio; quando, na verdade, o grande general não tem desejos de guerra.

Exercemos o nosso jus esperneandi, e é tudo o que podemos fazer. Estamos quase fadados a ter de suportar mais quatro anos de Bush; e a questão é se o mundo agüentará isto. O problema crucial, é que os cidadãos norte-americanos votam pelo mundo; tal é o poder bélico e econômico dos Estados Unidos. O que move não só os veículos, mas a política externa americana, é o petróleo, principalmente, vitalmente. Vejam se eles olham para os países pobres que necessitam de ajuda. Como disse certa vez em artigo, já faz um bom tempo, o jornalista João Mellão Neto, os Estados Unidos dão as costas para o mundo; para ilustrar sua idéia, descreveu o verso de uma nota de um dólar, onde há uma pirâmide; à sua frente, vegetação, e atrás, um deserto.

Ao topo da pirâmide, na qual há o desenho de um olho - de Deus? De quem?- a inscrição em latim: annuit coeptis, que quer dizer: “ele tem favorecido nosso empreendimentos”. Abaixo da pirâmide, outra frase em latim: novus ordo seclorum; “uma nova ordem mundial”

Já o Grande Selo dos Estados Unidos, traz a inscrição “E pluribus unum”. “A partir de todos, um só”. Isto pode ser interpretado de várias formas; antigamente, vários Estados num só. Hoje, o mundo a serviço de um senhor. Um senhor que faz do mundo seu vassalo, que engole petróleo com inusitada voracidade e não assina o protocolo de Kyoto (que trata da diminuição da poluição planetária); que polui, com seus carros beberrões e seu consumo desenfreado. Como se vê no verso na nota de um dólar, uma nação, um povo, que dá as costas ao mundo.

Talvez possa-se afirmar que a China segue seu rastro, no tocante ao crescente consumo de combustíveis fósseis e seus sub-produtos, de alimentos e tudo o mais; porém, a cultura do velho país talvez seja suficiente para fazer seus dirigentes acordar; o que também é um problema, pois se a China pisa no freio, o planeta sofre um tranco. No fim, encontramo-nos sob o velho dilema: se ficar, o bicho come; se correr, o bicho pega.

O autor, Luiz M. Leitão da Cunha, é administrador e articulista para os países lusófonos