A economia brasileira é tão desengonçada que precisa de uma taxa de juro real de 10% ao ano, sem o que ela desmorona. Essa idéia equivocada vem sustentando a política monetária que há seis anos submete o país a um crescimento medíocre de 2,2% do PIB, com uma inflação de 8%, em média. Mais recentemente se adicionou a hipótese que a nossa economia não pode crescer mais que 3,5%, sem produzir uma inflação devastadora. Se o PIB começa a crescer um pouco mais, como acontece agora, a resposta do Conselho de Política Monetária é subir a taxa básica de juros para esfriar a atividade econômica e tentar alcançar a meta da inflação. Impõe-se então um custo social desnecessário em termos de crescimento da produção e criação de empregos apenas para que o Banco Central não perca a “credibilidade”, como guardião da meta.
O mais curioso é que este “limite de crescimento” nasceu de cálculos cuja integridade não resiste a uma análise mais séria. Macroeconomistas, “tarometristas” e economistas construíram funções de produção em bases absolutamente abstratas, como por exemplo, escolher uma sorveteria em Caxambu e pôr na mesma função a Companhia Siderúrgica Nacional e daí extrair a média dessa produção. Pois essa função, projetada para o Brasil, resultou num crescimento de 3.5% que o Banco Central aceitou e adotou como se fosse um mandamento divino. Ficou estabelecido o seguinte: se a economia tentar crescer mais do que 3.5%, como o “produto potencial é 3,5%”, esse crescimento vai gerar inflação. Dado que a obrigação do Copom é manter a inflação dentro da meta, ele se opõe sistematicamente ao crescimento da economia, usando a ferramenta de sempre: o aumento da taxa de juros. Elevou-a em 0,75 % nos dois últimos meses.
Com o crescimento robusto da economia nos 3 trimestres de 2004, muito provavelmente a escalada da Selic não impedirá a expansão de 4.7% ou 4.8% do PIB até o final do ano. Mas a subida dos juros transmite duas mensagens extremamente negativas ao setor privado: numa, adverte os consumidores para que eles “reduzam suas compras porque os empregos estão novamente a perigo”; e noutra esfria o ânimo de investimento dos empresários com a ameaça que “não vai haver demanda para a sua produção”...
O efeito mais dramático é o que atinge o Tesouro: a elevação da taxa de juros piora a relação Dívida Líquida/PIB e portanto reduz a credibilidade externa do país, como ficou claramente demonstrado com a alta do “spread” logo em seguida à reunião do Copom, semana passada.
Apoiadas em hipóteses extremamente falhas, as decisões da autoridade monetária vão lentamente empurrando a economia de volta ao desenvolvimento medíocre dos últimos seis anos.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP