Elas rivalizam com os automóveis quando o assunto é beleza. Há até quem considere – que ganham disparado neste quesito se comparadas com as máquinas de quatro rodas. Mas o que poucos sabem é que as belíssimas modelos – são mais de 1 mil - presentes nos estandes do Salão do Automóvel são obrigadas a superar uma verdadeira “maratona” de trabalho durante os dez dias de realização do evento. Para elas, a “corrida” começa logo de madrugada, muitas horas antes da abertura das portas para a visitação popular. A jovem modelo Michele Martins, 18 anos, é um exemplo disso. Contratada pela Jaguar, precisa chegar ao local da feira 3h antes para produzir-se. “Temos de fazer a maquiagem, arrumar o cabelo e o vestido. Por isso, e como há muitas meninas, temos de estar aqui com antecedência”, conta.
E nos estandes, as dificuldades são variadas. A começar pelo tempo de permanência em pé, que pode variar de 8h até 12h com “direito” a salto alto. “Por isso, quando há a seleção, a primeira pergunta que faço é se terei de trabalhar com esse tipo de sapato, pois só aceito se o salto for baixo”, afirma Michele.
Já Luana Bertoletti, 21 anos, que enfeitou o estande da Land Rover, aproveita os poucos momentos de sossego para descansar o “corpitcho” nos bancos do automóvel em que ladeava. “É uma forma de amenizar o cansaço, pois tenho de ficar 9h em pé”, conta. Ela queixa-se, ainda, dos “modelitos” adotados pelas montadoras. “Os uniformes são feitos sem saber as condições climáticas no evento, pois não há como adivinhar. Por isso, de um jeito ou de outro, passamos frio ou calor”, reclama.
Luana lembra também dos apuros enfrentados pelas modelos que são obrigadas a ficar nos estandes giratórios. “Naqueles em que os carros ficam rodando, é comum muitas ficarem zonzas e enjoadas”, recorda. Por sorte, ela não foi escalada para permanecer em um desses, mas tem de superar outros desafios. “Não posso atender celular nem mesmo conversar com as outras colegas”, frisa.
O resultado de tanto esforço, às vezes, não é feliz, segundo as modelos. “Já vi meninas saírem chorando de tanto cansaço”, ressalta Michele. “Muitas vezes, o desgaste é mais mental do que físico, pois mesmo que tenhamos algum problema particular, temos de estar sempre bonitas e, principalmente, sorrindo, o que não é nada fácil”, enfatiza Luana.
Há também quem critique as ironias destiladas por visitantes contra as modelos. A “veterena” Patrícia Pimentel, 24 anos, e no quinto Salão consecutivo, atualmente pela Audi, é uma delas. “Muitos homens vêm para o evento subestimando a capacidade da mulher de fornecer informações técnicas sobre os veículos expostos”, considera. “Uma vez não soube responder o que era intercooler e as rotações de determinado motor e um rapaz fez questão de me pedir desculpas e tirar na minha cara falando que tinha esquecido que eu era só bonita”, relembra.
Apesar disso, Patrícia considera tais comportamentos como exceções. “A maioria das dúvidas que muitos têm é sanada nas placas técnicas existentes logo à frente dos automóveis”, salienta. Além disso, acrescenta ela, as montadoras esforçam-se para as modelos aprenderem sobre os carros ministrando verdadeiros cursos intensivos. “Eles nos dão treinamento detalhado, o que nos ajuda muito”, afirma.
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Galanteios
Além de todo esforço físico e mental a que são submetidas, as modelos do Salão do Automóvel também são obrigadas a conviver com as inconvenientes “cantadas” do público que visita o evento. “No começo, chorava e ficava desesperada, pois já tomei tantas cantadas absurdas que não gosto nem de lembrar. Mas agora já encaro com mais normalidade”, diz Michele Martins, do estande da Jaguar.
Quem também tinha igual comportamento era Luana Bertoletti, da Land Rover, para quem os galanteios chegava a assustar. “A impressão que dá é que quem faz isso nunca viu mulher na vida. Já cheguei a ficar muito triste e chateada, mas atualmente não ligo mais”, garante. Para isso, ela utiliza uma tática especial. “Mudo de assunto, me finjo de boba faço de conta que não é comigo”, revela.
Outra que já foi alvo de vários gracejos masculinos foi Patrícia Pimentel, da Audi, que demonstra bom humor quando trata do assunto. “Nem dou atenção e deixo a pessoa ser feliz naquele momento, pois ele está vendo um carro e uma mulher que nunca terão na vida dele”, ironiza, rindo.
Patrícia também diverte-se com o comportamento de casais de namorados no Salão. Ela conta já ter identificado táticas masculinas para poder olhar as modelos sem levantar suspeitas. “Normalmente, o cara coloca a namorada na frente e encara as modelos. Quando a mulher dele olha, ele disfarça fazendo de conta que está vendo a roda”, conta ela, gargalhando. “Esse é o típico caso em que eles são loucos para ver as traseiras, mas não são as dos carros”, brinca.