Vereador sempre presente, aproveitava cada chance para engatar discursos pomposos. Tido e havido como entendedor de qualquer assunto.
Aquele dia de sessão tinha a marca do improviso. O infausto passamento (era assim que se dizia da morte naquele tempo) de seu vizinho, compadre e eleitor trouxera obrigações extras, consolando a família, desembaraçando a burocracia funerária, preparando o defunto para o sepultamento em Catanduva, sua terra natal, etc e tal.
Chegou atrasado. Debates acalorados. Plenário e galeria atentos. Não entendia o tema do empolgado discurso do colega.
Angustiado, arriscou aparte provocativo: “Ainda que Vossa Excelência possa ter uma boa razão, é prudente que se preste atenção no exemplo de Catanduva. A questão é muito séria!”
O orador ignorou seu aparte. Mais angustiado, minuto depois voltou à carga com novo aparte, agora mais enfático.
“Excelência, eu me recuso a aceitar, em homenagem ao nosso povo, que aquilo que aconteceu em Catanduva não seja levado a sério. Acho isso um ultraje, uma ofensa a nossa gente!”
O orador, irritado, questionou de bate-pronto:
“Vossa excelência afinal pode nos dizer o que aconteceu de tão grave e importante em Catanduva?”
A resposta veio na lata, firme e definitiva, para fazer desabar o orador. Vereador há quatro legislaturas, era escravo do povo. Morava na cidade há quase quarenta anos. Amava e servia seu povo, sempre observando as coisas boas e ruins e para lutar sempre pelo que fosse melhor. Por isso só podia lastimar o comportamento do orador e lhe devolvia a pergunta: “Como é que o nobre orador, pode discursar com tanta empolgação, despertar a atenção de seus pares e da galeria, sem saber o que havia acontecido em Catanduva?”
Definitivamente, era muita irresponsabilidade!
Narrada por José Fernando da Silva Lopes