09 de julho de 2026
Geral

Grand Expo 2004: Vida estradeira marca comerciantes

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Quem vê as dezenas de estandes recheados dos mais diferentes tipos de produtos não imagina as dificuldades que os comerciantes das feiras agropecuárias enfrentam no dia-a-dia. A maioria deles vem de longe, tem saudade da família, fica em acomodações precárias, tem despesas muito elevadas e vive a angústia constante de não saber se a exposição dará lucro ou prejuízo.

Vendedor de móveis de madeira pesada, João Alberto Coenga conta que a empresa trouxe cerca de 200 peças para a Expo 2004. Com o auxílio de apenas mais um funcionário, ele montou dezenas de mesas, cadeiras, bancos e outros produtos de jardim. Durante 15 dias eles vão dormir em barracas montadas dentro do próprio estande e se alimentar como for possível.

“É muito tempo longe de casa, a família reclama - principalmente os netos. E os resultados são imprevisíveis. Nossos produtos são raros e chamam a atenção das pessoas, mas se chove e não vem ninguém à feira, não vendemos. Se as pessoas não tiverem bom poder aquisitivo, não vendemos”, ressalta.

Feliciano Lopes Neto trouxe para a feira produtos para gado de fabricação própria. Morador em Garça, é a primeira vez que vem a Bauru, mas o pai e os tios vêm à feira há vários anos.

“A gente viaja o ano inteiro, pelo Brasil inteiro. Não é fácil, mas vale a pena. Por enquanto, as vendas estão fracas, mas todas as feiras são assim. Só melhora para nós na segunda semana, quando chegam os criadores de gado nelore”, afirma.

O comerciante Antônio Caldeira de Oliveira montou, pelo quinto ano consecutivo, um restaurante na Expo 2004. Ele veio de Presidente Prudente panelas, aparadores, estufas, pratos, talheres, copos e tantos outros utensílios. Trouxe dez funcionários e contratou mais cinco na cidade. Parte dos que vieram de fora dormem em colchões, no próprio estande, os demais alugam casas nas imediações do Recinto.

“Por mês, a gente não passa mais que cinco dias em casa. O resto do tempo estamos viajando, acompanhando as várias feiras realizadas por aí (...) Por enquanto, as vendas estão boas. Cerca de 200 pessoas passaram por aqui ontem (anteontem). Se continuar assim, vai valer a pena”, prevê.

Segundo ele, as despesas para trazer e montar um restaurante na feira gira em torno de R$ 8 mil a R$ 10 mil e se o movimento na feira for fraco, o prejuízo é certo. “Ano passado não foi bom. O que ganhamos empatou com o que gastamos. Esse ano tem tudo para ser bom - vamos ver nos próximos dias”, anima-se.

Produtor de chapéus, arreios, botas e bonés, José Luiz Junqueira vem de Franca pela primeira vez para Bauru. “O movimento das visitas está muito bom, o comércio de Bauru tem boa aceitação e, como nossa fabricação é própria e não temos despesas com frete e comissão, nosso lucro acaba sendo maior”, destaca. A exemplo da maioria, ele diz que também passa apenas cinco dias por mês em casa.

A feira também tem lugares para os pequenos comerciantes, que dependem dessas vendas para sobreviver. O auxiliar de eletricista Jair Rodrigues, por exemplo, morador de Bauru, tem percorrido todo o recinto vendendo água de coco num carrinho. “Estou desempregado há mais de um ano e a dona da empresa paga R$ 15,00 por dia. Não é muito, mas não dá para dispensar”, argumenta.

O vendedor de batatas fritas e algodão-doce Aparecido Rosalvo Teles veio de Marília e diz percorrer feiras, shows e exposições por todo o Estado. “Eu tinha um restaurante, mas as dificuldades foram tantas que tive que me tornar informal. Hoje, eu passo a maior parte do mês viajando, a mulher reclama, os (quatro) filhos reclamam. Quando dá, a gente faz uma visita, mas tem que trabalhar”, salienta.

Apesar dos sacrifícios, dos riscos e da má acomodação, a maioria dos comerciantes diz já ter se acostumado com a vida itinerante. Como Fábio Andrade, que veio do Paraná com um carrinho de sorvete americano.

“Acompanho feiras há sete anos, sempre dormindo no caminhão. Meus pais reclamam um pouco, dizem para eu largar isso, para arrumar um emprego fixo na cidade, mas eu me acostumei. Não gosto de rotina”, admite.

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Lei seca

Por determinação judicial, a venda de bebidas alcoólicas estará proibida hoje das 8h às 17h em todos os municípios onde haverá eleições em segundo turno. Neste período, todos os estandes estarão impedidos de vender ou servir esses produtos.

Para quem pretende almoçar em um dos estandes da feira, a organização da Grand Expo 2004 informa que só serão servidos água, sucos e refrigerantes. A venda de bebidas alcoólicas só será liberada após o término das votações, às 17h.