09 de julho de 2026
Geral

Lar de sem-teto vira 'loja' na Nossa Senhora de Fátima

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 2 min

Os produtos são variados para atender o gosto do freguês. Tem publicações sobre linguagem literária, títulos como “A Histeria” e “O Iluminismo”. Longe de ser uma livraria, o comércio ainda oferece eletrodomésticos, roupas, vasos, enfeites e calotas para rodas. Porém, não é a diversificação que torna o estabelecimento inusitado, mas onde ele está instalado: numa construção abandonada na quadra 13 da avenida Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Europa.

Graças ao endereço nobre e ao atendimento 24h, até madame freqüenta a loja, que não tem água encanada, energia elétrica ou banheiro. Mesmo assim, o perfil dos clientes é o mais variado possível, garante o comerciante e sem-teto Geraldo Roberto dos Santos, 48 anos. Timidamente, ele começou a vender produtos usados no início do ano, quando encontrou uma opção de moradia entre as ruínas do que um dia seria um prédio.

Para lá, levou a mulher e o filho “do coração” de 32 anos. “No início, colocávamos as mercadorias na calçada, mas a polícia não deixou. Foi quando minha mulher morreu (há cinco meses), que começou a funcionar aqui numa espécie de galpão. Vendemos o material doado e o que arrecadamos (com um carrinho de mão) na rua. Fica tudo aqui”, conta Santos, cujo apelido é Cascá.

Parte do local é protegida por poucas telhas, adquiridas através da venda das mercadorias. “Compramos porque quando chove molha tudo. Em cima da minha cama tem quatro goteiras. Com o dinheiro, eu faço manutenção, compro comida e ajudo quem precisa”, diz.

Mas se em alguns meses o negócio garante renda de até R$ 400,00, em outros Santos fica sem trocado até para comprar alguma bebida que possa ajudá-lo a suportar as noites frias. Mesmo assim, quando passa algum desvalido pela venda, ele cede roupas e calçados. “O mundo poderia ser melhor. É muita ganância. As pessoas poderiam aprender a repartir um pouco. Tem gente que tem quatro ou cinco carros, mas quando morrer, não vai levar nenhum”, lembra.

Suas palavras são livres de rancor ou ressentimento. Diz que está satisfeito com a profissão, abraçada desde os 10 anos quando começou a vender verduras. Hoje comercializa desde jornal velho a R$ 0,15 o quilo até fogão a preço de R$ 50,00. Entre as poucas dificuldades apontadas está a de proteger de furtos os produtos mantidos no prédio, que é aberto.

A reportagem tentou conversar com o responsável pelo imóvel, mas não obteve resposta.