A missão do governo Lula é repor o País no rumo do desenvolvimento. O resultado dessa tarefa é que vai presidir o próximo julgamento das urnas. Nos últimos 20 anos, a economia brasileira patinou, com pequenos espasmos de crescimento. O PIB avançou pouco mais de 2% ao ano, contrastando com o crescimento médio de 6% nas duas décadas anteriores a 1980. O abandono das políticas que objetivavam o desenvolvimento resultou em altos níveis de desemprego, permitindo a acumulação desse grande “exército de reserva de mão-de-obra” que vai levar alguns anos para ser reabsorvido na economia.
No governo passado, o aborrecimento da equipe econômica em relação aos problemas do setor produtivo e certo desprezo pelo que representavam empresários e trabalhadores, acentuaram o viés anticrescimento da política. Agricultores e pecuaristas eram considerados “caloteiros”; a indústria era tratada como “um bando de incompetentes, ávidos por subsídios”. Bons mesmos eram os agentes dos mercados financeiros...
Com a posse de Lula, começou uma mudança importante na condução da política econômica, ainda mal percebida devido à timidez e a uma certa descoordenação na comunicação social do governo. Isso vem acontecendo desde o início, quando o novo governo teve a competência de acalmar os mercados, com uma política fiscal muito mais consistente do que a de FHC. Ao mesmo tempo trabalhou para ganhar a confiança dos empresários. A exoneração de impostos nos investimentos de capital e nas exportações e mais o alongamento dos prazos de recolhimento de impostos na indústria são demonstrações práticas da determinação do governo pelo desenvolvimento. O forte suporte de crédito à agricultura e à pecuária reanimou o agronegócio e recuperou a confiança dos produtores rurais, resultando no aumento das safras de grãos e em grandes saldos do comércio exterior. O decidido apoio que deu ao setor exportador, expandindo o crédito do Banco do Brasil, atraiu aos poucos as pequenas e médias empresas de volta ao comércio exterior. E o alongamento dos prazos de recolhimento dos impostos na indústria tem sido a forma mais eficaz de combater os altos juros na medida em que libera capital de giro a custo zero para as empresas.
São esses acertos que vêm convencendo os empresários brasileiros a retomar os investimentos, a enfrentar riscos e correr atrás do lucro. Neste final de 2004, o PIB está crescendo a 4% ou 5%, o que vem melhorando a oferta de postos de trabalho, embora num ritmo suficiente apenas para incorporar o pessoal que vai chegando todos os anos. A enorme massa de desempregados só vai retornar ao mercado de trabalho com o PIB crescendo mais de 5% e 6% durante meia dúzia de anos, pelo menos.
A tarefa do governo Lula, portanto, é resgatar os empregos destruídos. O caminho é aquele que os governos anteriores se recusaram a enxergar nas duas últimas décadas: só o desenvolvimento garante empregos para quem quer trabalhar; e sem trabalho não se constrói uma sociedade digna, razoavelmente justa, não se elimina a pobreza nem se alcança a prosperidade.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP e professor emérito da USP