O adobe (terra crua utilizada
para construção) é visto
como uma alternativa para
habitações populares. A informação
é do engenheiro
Obede Borges Faria, professor
do Departamento de Engenharia
Civil da Universidade
Estadual Paulista
(Unesp).
O professor explica que o
custo principal de uma casa
construída com adobe é a
mão-de-obra já que a matériaprima
principal é a terra.
Além disso, a técnica permite
que os próprios moradores
participem do processo de
construção.
“Muitas vezes, o usuário
de uma casa popular está desempregado
e essa é uma forma
de se ocupar. Também
eleva a auto-estima porque a
pessoa sente-se capaz de
construir o material para a
própria habitação”, expõe.
O adobe é uma mistura de
terra com argila e água. A
mistura ideal é feita com solo
mais arenoso e deve ter de
25% a 30% de argila. Caso o
solo seja argiloso, basta
acrescentar areia ou fibras vegetais,
como capim seco triturado.
A mistura é amassada
com os pés. A consistência é
o grande segredo já que o adobe
tem de ser colocado em
uma forma de madeira e desenformado
logo em seguida.
“Não pode ser muito mole
nem muito duro”, diz Obede.
Depois de amassada, a
mistura deve ser passada na
água, depois na areia, colocada
em uma forma (sem fundo)
do tamanho desejado e logo
retirada dela. “Quando o
bolo de terra é jogado dentro
da forma, ele tem de preencher
sozinho todos os cantos
dela”, explica o professor.
A secagem é feita naturalmente,
à meia-sombra. Nos
primeiros dias de secagem,
os tijolos de adobe não devem
receber sol direto. Em
média, o processo demora de
dez a 15 dias.
Caso o resultado não seja
ideal, é possível refazer o tijolo.
Basta molhar a terra e repetir
os procedimentos, quantas
vezes for necessário.
De acordo com Obede, é
possível fazer uma casa inteira
com adobe. Com pequenas
variações, a massa utilizada
na confecção dos tijolos pode
ser empregada no reboco
das paredes.
“Basta um pouco de cal
para não haver problema de
retração. A massa fica mais
elástica e mecanicamente
mais resistente. Dá para fazer
a casa inteira, menos as fundações
porque na nossa região
não temos muitas pedras”,
diz.
Assim como outros tipos
de construções, as de terra demandam
um cuidado especial
com umidade. “O cuidado
com umidade na construção
independe do material.
Se a base não for impermeabilizada,
a água do solo sobe
por capilaridade e o material
terá problemas. Acontece
também com o concreto,
com a estrutura metálica e
com a madeira”, observa.
O engenheiro frisa que o
adobe é feito a partir de matéria-
prima local e é produzido
artesanalmente. “O tijolo
queimado, por exemplo, é feito
com argila e é industrializado.
A indústria degrada a
paisagem e o meio ambiente
e o processo de produção consome
muita energia”, critica.
Uma das vantagens dos
materiais ambientais, segundo
o professor, é o conforto
térmico. “A terra crua promove
mais conforto térmico e
acústico do que o tijolo queimado
e o concreto”, afirma.
Por ser um material nãoestabilizado
quimicamente,
também oferece benefícios à
saúde já que a parede de terra
funciona como um regulador
de umidade. “Se o ambiente
interno está úmido, a parede
absorve a umidade. Se está
seco, a parede libera umidade
para o meio-ambiente. Isso
acaba mantendo a umidade
do ar num nível estável e
saudável”, enfatiza.
Segundo Obede, o adobe
não é utilizado nas construções
de Bauru. “Na nossa realidade,
a técnica é muito pouco
utilizada. Mas há informações
de que pelo menos um
terço da população mundial
mora em casas de terra. Isso
existe na África, na Índia, na
China e na maioria dos países
da América Latina, como
Peru e Chile. Em El Salvador
só se constrói com terra”,
argumenta.
Mas, em outros pontos do
País, como no Nordeste e na região
central, as construções
com adobe são muito utilizadas.
“No Mato Grosso, na região
de Cuiabá, o adobe faz parte
da cultura local”, diz.