O projeto e a arquitetura de uma escola, sua iluminação, áreas de convivência e até mesmo a visão que se tem das janelas podem influenciar no rendimento dos alunos que freqüentam o ambiente. É o que aponta um estudo realizado pela arquiteta bauruense Artemis Rodrigues Fontana Ferraz, que analisou prédios do Serviço Nacional da Indústria (Senai), Serviço Social do Comércio (Sesc) e Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de todo o Estado.
Os prédios, segundo Artemis, fazem parte do que ela classifica como “os três ‘Ss’ Modernos”, construídos a partir da década de 50 em diversas cidades paulistas. Em Bauru, os principais exemplos desse estilo de arquitetura são os edifícios do Senac na avenida Nações Unidas e o Senai, na rua Virgílio Malta.
“É uma arquitetura moderna, que faz parte do sistema pedagógico e é aplicada para atendê-lo. Antes, as escolas tinham estilo tradicional, neoclássico. A partir da adoção dessa arquitetura, as escolas são pensadas para atender aos alunos”, explica a arquiteta, que apresentou seu estudo na 8ª Conferência Internacional do Movimento de Documentação e Conservação do Modernismo (Do.Co.Mo.Mo), na Universidade de Columbia, em Nova York, em setembro deste ano.
De acordo com Artemis, os arquitetos envolvidos com a construção dos prédios quiseram atender certas características pedagógicas, como atratividade, conexão, sociabilidade, eficiência, economia e crescimento, refletindo-as nos projetos. “A estrutura das escolas auxilia na educação, facilita o aprendizado e dá incentivo para o aluno freqüentá-las, e por isso esse serviços são como são atualmente”, ressalta.
Além de contarem com boa iluminação e ventilação, as salas eram limitadas por divisórias móveis, que poderiam ser realocadas de acordo com a necessidade. “Na questão da economia, entra também a idéia dos três pavimentos, com térreo, intermediário e superior. No intermediário, ficavam os banheiros e áreas comuns, e o acesso era mais fácil a todos que estavam no prédio”, diz a arquiteta.
No entanto, ela destaca que os edifícios tinham alto custo de construção, ao contrário dos projetos atuais de escolas estaduais e municipais, cujo orçamento normalmente é reduzido.
Como os edifícios do Senai e Sesc-Senac (que se separaram posteriormente) são destinados ao ensino profissionalizante, a intenção dos arquitetos modernistas era ampliar a visão dos alunos e proporcionar a interação das salas de aula com outros ambientes da escola e com a própria cidade.
“São edifícios onde o ensinar está ligado ao modo como foram projetados. Eles proporcionam a sociabilidade, o convívio entre os alunos, professores, visitantes, e também ampliam o rendimento dos estudantes, no sentido de que a escola é aberta para a cidade e para as oficinas”, comenta Artemis.
A arquiteta observa que muitas salas tinham – e ainda têm - suas janelas voltadas para as oficinas, o que proporciona aos alunos a junção da teoria com a prática. As unidades contavam ainda com áreas verdes, pátios e piscinas, com os prédios interligados por passarelas sobre as áreas de convívio. “Era um ambiente agradável, uma escola atrativa para quem vê de fora e para quem está dentro. Hoje, as escolas se fecharam pela questão da segurança”, destaca.
Amplitude
A nova unidade educacional do Sesi, na avenida Rodrigues Alves, também agrega elementos das construções modernistas da década de 1950 e 1960 analisadas por Artemis. Limitada apenas por grades, a escola apresenta um grande espaço aberto, com diversas áreas verdes e locais para concentração dos alunos sem qualquer pressão de paredes e muros.
Na opinião da diretora do Sesi de Bauru, Zuleika Lemos de Almeida Gonçalves, o projeto arquitetônico de escolas, como as instituições analisadas pela arquiteta e as unidades do próprio Sesi visam não só a facilidade de aprendizagem, mas também a adaptação dos alunos ao espaço e também a interação das crianças, pais e funcionários na vida escolar. “São prédios pensados e estudados, que acabam se tornando referência para toda a rede Sesi, como foi a unidade da Rodrigues Alves”, destaca.
Zuleika observa que a construção aposta em sua amplitude para conquistar os alunos. “Os corredores são amplos, nada parece sem saída, tudo dá o conceito de liberdade. Como se exige muita criatividade do aluno, ele a desenvolve com prazer. A amplitude e as condições físicas favoreçam isso”, afirma.