09 de julho de 2026
Articulistas

A eleição na matriz


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“Perdi a eleição”, disse o meu aluno no intervalo da aula sem esconder a cara de decepcionado. Inferi que ele estava se reportando à eleição municipal e talvez tivesse votado no Gazzeta. Tem um quê de ambientalista. Surpresa. Ele lamentava a vitória de George W. Bush contrariando sua torcida pelo republicano John Kerry. Culpa da exagerada cobertura da imprensa brasileira ao pleito, lá na matriz. Dois terços dos noticiosos da Globo, na última semana, foram dedicados às eleições norte-americanas. Até a Fátima Bernardes foi deslocada para o telhado de um prédio em Washington para poder ancorar as informações tendo a Casa Branca como pano de fundo. A “Folha” há um mês vem publicando um grosso caderno sobre o pleito no “Império” contando tudo desde a escolha de George Washington até os dias presentes. Uma equipe foi deslocada para verificar a expectativa em cada Estado, do Pacífico ao Atlântico. Americano mesmo, nem aí. A tradição é reeleger para um segundo mandato.

O “bis” de Bush ainda despertou algum interesse por causa da guerra no Iraque. Quem tem filhos, netos ou irmãos em idade de servir nas Forças Armadas tinha interesse em Kerry porque entendiam que ele poderia representar o fim da ocupação no Oriente. Coisa difícil de acontecer com o Bin Laden à solta. A maioria dos americanos ainda quer vingar o atentado às Torres Gêmeas e sonham em acabar com o terrorismo que, na verdade, é só uma forma desesperada de resistência.

O voto nos Estados Unidos não é obrigatório. Dia de eleição é como outro qualquer com trabalho, aulas e cumprimento de outras obrigações profissionais e sociais. O método de colher os votos e de contá-los é anacrônico. Em cada Estado é de um jeito. A maioria ainda se utiliza de cartões perfurados. Isso porque eles assim querem. A nação mais high-tech do mundo poderia dar um show tecnológico eleitoral se assim entendesse. Já ouvi gente dizendo que os EUA “se curvam” diante da urna eletrônica brasileira. Alegria de pobre...

Embora sejam dois os partidos predominantes - Democrata e Republicano - foram 12 os candidatos à presidência. O mais forte dos alternativo é aquele histórico defensor dos direitos dos consumidores, chamado Ralph Nader, com 1% dos votos. Nenhum cartaz ou faixa é afixado em lugares públicos. Pichar muros dá pesadas multas e cinco anos de cadeia aos infratores. A propaganda eleitoral gratuita é coisa de brasileiro. Lá, quem quiser que pague a sua. E custa caro.

Os norte-americanos sabem que, seja quem for o eleito, o importante é a “instituição” Estados Unidos da América. O “poderoso de plantão”, na verdade, é indicado pelos delegados no Congresso. Sem os parlamentares, ele não manda tropas e muito menos bate em retirada por mais que arda o seu traseiro. Se o presidente pisar na bola, basta mentir como aconteceu com Nixon, o impeachment vem rápido e certeiro como uma flecha. Clinton salvou-se porque foi esperto ao afirmar nunca ter feito sexo com a estagiária. Só não disse - porque ninguém perguntou - ter feito pior.

Em última análise, quem manda é o povo. A democracia direta exercida pelas multidões que invadiram Washington para dar aos negros igualdade civil ou para acabar com a Guerra do Vietnã vale mais do que qualquer eleição. O clamor popular é ouvido pelos congressistas em quaisquer circunstâncias. A opinião pública, ou a voz da população organizada, é que vai acabar com a guerra do Iraque quando esta encher a paciência. A primeira reação à eleição de Bush foi a alta das ações das indústrias bélicas. O Congresso já havia aprovado verba suplementar de US$ 75 bilhões às Forças Armadas. Dinheiro suficiente para acabar com a fome na África, na América Latina e até nos Estados Unidos. O mito de Bin Laden, que de vez enquanto teima em aparecer na televisão, continuará abalando o Império. Pelo menos até o dia em que o povo decidir que essa fantasma “é um bom camarada”. Que fique por lá. Um dia, esses ianques vão se conscientizar que o importante é gozar o melhor padrão de vida do mundo. Dar uma de bom mineiro: “Quem tá bem não se mete com perdido, sô”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)