Recebi outro dia do senhor Francisco, o “Seu Chico”, grande amigo pescador, um filme da pescaria que fizemos em 1988, no Pantanal, no Rancho da Associação dos Engenheiros da Noroeste, em Porto Esperança – Corumbá-MS. Tenho certeza que muitos pescadores sentirão saudades da “rotina” daquela época.
Embarcamos na estação central da Noroeste de Bauru por volta das 13h, mas, desde o amanhecer trabalhamos sem parar passando a “tralha” dos caminhões e caminhonetes para o vagão de carga. E que tralha!!! Motores de popa, barcos de alumínio, enormes caixas para gelo, engradados com garrafas de cerveja e de refrigerantes, caixas com mantimentos comprados no “Supermercado Sakata”, todas cuidadosamente embaladas e etiquetadas pelo “Seu Chico”, o “guarda-livros vitalício” da “Caravana do Tio Cesto”.
A “Caravana do Tio Cesto” formou-se no início dos anos 80, liderada pelo Thomaz que, na época, era nosso vizinho na Rua Antonio Xavier de Mendonça. Naquele ano de 1988, comigo viajaram o “Tio Cesto”, o Sérgio, o Rodrigo e o Rogério (o ”Atlas”), respectivamente tio, cunhado e filhos do Thomaz. Também viajaram o “Seu Chico”, o Zé Augusto de Ibitinga, o Albino de Jaú, o meu pai Piccino, o meu cunhado Mirto. Ainda, viajando pela segunda vez com a caravana, nossos vizinhos Catalano e Tosi, aliás, os responsáveis pelas filmagens.
Depois de tudo carregado e acomodado, vagão de carga lotado, trancado a cadeado, ficaram por lá apenas o cozinheiro “Carlão” e seu ajudante “Gêra”, ferroviários distintos que todo ano buscavam acertar suas férias para nos acompanhar nas pescarias. Nós tivemos tempo de voltar para casa, tomar um banho, almoçar para depois retornar à estação, onde iam chegando aos montes os inconfundíveis pescadores acompanhados de suas famílias. Todos se apressavam para o fim da gare onde embarcamos, cada “turma” no “seu” vagão, estrategicamente os últimos da composição, depois do restaurante, deixando assim de ser passagem aos passageiros “normais”, conseguindo-se alguma tranqüilidade aos pescadores com suas “tralhas” de mão.
Tudo pronto, os pescadores nas janelas, as famílias nas plataformas, e soa o apito forte tão esperado... O trem começa a se movimentar... (ah que saudades!)... os familiares queridos e seus acenos vão diminuindo no horizonte, emoldurados pelo enorme arco da estação central de Bauru que ostentava a inesquecível marca N.O.B. em seu cume. Logo deixamos a área urbana, abre-se o primeiro barril de chope... Começou a pescaria!
O vagão que viajamos tinha quartos confortáveis com beliches, banheiro, cozinha e uma sala grande toda envidraçada, onde ficamos a maior parte da viagem de quase 30 horas jogando truco, comendo, bebendo, apreciando a paisagem e contando piadas. Quando o trem passou pela ponte do rio Paraná o sentimento de “despedida da civilização” foi se intensificando, passamos por Três Lagoas, Água Clara, Ribas do Rio Pardo e tantas outras localidades até que a surpreendente Campo Grande impôs-se como metrópole regional.
Depois, saindo de Campo Grande, vinha um trecho muito divertido em que a linha do trem seguia longamente lado a lado com a rodovia. Foi uma delícia acenar aos pescadores, “pobre mortais”, que viajavam em caminhonetes, exibindo-lhes espumosas tulipas de chope. Pode dizer o que quiser, que é mais rápido ir de caminhonete ou carro, que os ônibus–leito modernos são mais confortáveis, até que se pode ir de avião em poucas horas, mas nada se igualará à delícia daquelas viagens de trem.
Pois bem, voltando a 1988. Na tarde seguinte ao embarque, quando o trem passou pela região da serra da Bodoquena, o “Carlão” e outros cozinheiros ficaram nas janelas dos vagões balançando pedaços de carne e um bando de gaviões em manobras precisas iam pegando seus nacos.
A chegada em Porto Esperança aconteceu tarde da noite, e só depois de muito repelente de insetos é que conseguimos dormir ali mesmo no “nosso” vagão, que foi desligado da composição e deixado às margens do Rio Paraguai. Ao raiar do dia, todos pularam para um rápido cafezinho preparado pelo “Gêra” e a nova maratona, de descarregar tudo, passar para a barcaça e seguir rio acima até o Rancho da Associação, onde finalmente acomodamos a enorme e pesada “tralha”. Tomamos um delicioso banho de ducha e sentamos na varanda para apreciar a paisagem e saborear os aperitivos e as cervejas servidas pelo “Gêra”, enquanto o “Carlão” ultimava nosso primeiro almoço no rancho daquele ano.
Após o almoço quase todos foram pescar. Eu e o “Tio Cesto” ficamos batendo “papo-furado” até que ele, do alto de seus mais de 70 anos de idade e muita experiência, teve uma brilhante idéia. Fizemos um colar com umas 20 latinhas de cerveja vazias e linha de pesca. Depois escondemos esse colar embaixo de sacarias de pano e outras coisas leves e fomos esticando e passando a linha em ganchos improvisados na parede até o outro lado da varanda, onde ficava o meu quarto e passamos a linha até minha cama, no alto do beliche. Tudo amarrado, testamos e funcionou maravilhosamente. Da minha cama, eu puxava a linha de pesca que arrastava o colar de latas e sacarias do outro lado do rancho, provocando enorme barulho!
Na madrugada, todos dormindo, comecei a puxar o colar e pouco a pouco alguns foram acordando com o barulho. O gerador estava desligado, portanto tudo estava muito quieto e escuro, quando percebi que acenderam uma lanterna e começaram a procurar. Meu pai e o Mirto, que dormiam no meu quarto, acordaram com o “tropé” de dois outros pescadores da caravana que, com revólver e lanterna em punho, vasculhavam o rancho à procura do bicho na varanda – “pelo barulhão, deve ser grande!” diziam. Minha risada abafada pelo travesseiro intrigou ainda mais o Mirto e meu pai, quando, cochichando, lhes expliquei o que acontecia. Da mesma forma, o “Tio Cesto” explicou aos seus companheiros de quarto, enquanto no quarto do Thomaz todos continuaram dormindo, alheios a tudo, protegidos pelo seu poderoso ronco. Depois de alguma procura finalmente aqueles dois pescadores descobriram o colar de latinhas e começaram a seguir a linha quando tratei de puxá-la com bastante força, estiquei bem e cortei com o canivete. A linha voltou como um elástico e não conseguiram saber até que cama ela seguia. Todos continuaram fingindo que dormiam enquanto os dois também começaram a rir da brincadeira e voltaram para suas camas prometendo retribuir.
Naquela pescaria e nas várias outras incursões da “Caravana do Tio Cesto”, ocorreram outras tantas histórias engraçadas que poderei contar noutras vezes, se meus companheiros permitirem...
Antonio Carlos Piccino Filho é delegado e contador de histórias.