08 de julho de 2026
Bairros

Saúde instala câmeras para vigiar PS

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 3 min

O Pronto-Socorro Central (PSC) de Bauru começou a receber nesta semana um novíssimo sistema de circuito interno de TV, com várias câmeras espalhadas pela unidade, do saguão de entrada aos vários corredores. O secretário municipal de Saúde, João Sérgio Carneiro, justificou a medida com o argumento de que o sistema garantirá a segurança, “tanto dos usuários, quanto dos funcionários”.

Os servidores da unidade, por sua vez, ficaram extremamente indignados com a medida, por entendê-la como uma forma de patrulhamento do tipo 24 horas, algo parecido com o programa “Big Brother Brasil”, reality show da TV que vigia ininterruptamente os participantes através de câmeras espalhadas por uma casa.

Além disso, alguns deles chegaram a protestar também pelo fato de que a secretaria deveria combater a falta de material básico de atendimento ao invés de investir na compra do equipamento. “É um absurdo gastar com câmeras quando às vezes faltam até seringas”, disse ontem à tarde um enfermeiro, que pediu para não ser identificado.

O Sindicato dos Servidores Municipais (Sinserm), que só tomou conhecimento da medida anteontem durante uma visita à unidade, entrou no debate e questionou ainda os critérios de prioridade da administração municipal. “Será que isso (circuito interno) era realmente necessário diante das enormes carências do sistema de saúde”, questionou Idelma Corral, diretora do Sinserm.

A indignação e o constrangimento dos funcionários também foram constatados anteontem à noite pelo presidente do Conselho Curador da Fundação de Previdência dos Municipiários (Funprev), Vanderlei Tomiati. Em campanha por sua reeleição ao cargo, Tomiati pôde conversar com vários servidores do PSC. “Eles (servidores) estão indignados porque entendem que o objetivo é apenas o de vigiá-los”, relata Tomiati.

Um dos médicos plantonistas, que também pediu anonimato, acusa ainda uma suposta subversão do sentido de prioridade da administração. “Faltam medicamentos e até otoscópios (aparelho usado principalmente em exames pediátricos). Este dinheiro poderia ser usado de outra forma”, diz o médico.

Ele vê ainda um constrangimento extra aos usuários do PSC, ao lembrar que em vários oportunidades eles precisam receber atendimento nos corredores, justamente onde estão sendo instaladas as câmeras.

O secretário de Saúde contesta todos os argumentos apresentados para defender a instalação do novo sistema, a começar pela suposta falta de material na unidade. “Pode até haver algum atraso na entrega (do material) ou no trâmite dos empenhos. Mas são apenas questões burocráticas”, disse.

Carneiro diz que o principal objetivo seria o de inibir roubos e outras situações comuns em um local como o PSC. “A unidade central é alvo da ação de pessoas que roubam medicamentos e até a sala de repouso dos médicos”, diz, ressaltando que há casos em que pessoas se passam por pacientes para praticar estes delitos. “A função das câmeras é apenas protetora, pois inibe este tipo de ação (roubos) nos principais focos do problemas”.

Com relação ao constrangimento supostamente provocado junto ao corpo de servidores da unidade, o secretário foi incisivo: “Quem não deve, não teme. Se ele (servidor) está nervoso, é porque está fazendo coisa errada”, afirma Carneiro, que também rebate um eventual constrangimento ao usuário. “É um circuito interno, a imagem não sairá do sistema e nunca chegará ao público”, diz.

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Surpresa

A presidente do Conselho Municipal de Saúde, Vera Porto, se surpreendeu ao ser informada de que o Pronto-Socorro Municipal (PSC) será equipado com o sistema de circuito interno de TV. “Não sabia disso”, disse. Mesmo ressaltando que cabe ao conselho a discussão das diretrizes gerais do sistema de saúde, Porto acredita que uma medida administrativa como esta merece uma reflexão. “Será que este é o melhor destino para o dinheiro da Saúde”, questiona.

Conselheira do órgão há cerca de oito anos, Vera Porto lamentou que, “no apagar das luzes”, a atual administração não consiga enxergar as verdadeiras prioridades do sistema de saúde pública. “Enquanto há dinheiro parado em certas contas vinculadas, a Prefeitura gasta a verba da saúde com ações que sequer tiveram sua prioridade debatida”, diz

Vera Porto referia-se a uma verba, segundo ela já disponível mas não viabilizada, para reforma do Instituto de Saúde do Trabalhador, considerado um centro de referência. “Por que a Prefeitura não corre atrás desta verba? Com certeza há questões mais prioritárias que estas câmeras”, afirma.