09 de julho de 2026
Auto Mercado

Entre bombas e mangueiras, elas mantêm a delicadeza

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

Cabelos geralmente presos em rabos-de-cavalo e sob bonés, unhas esmaltadas e moldadas à lixa, maquiagem leve, olhos delineados e batom nos lábios. É com esse visual, e tendo a beleza, o sorriso e a simpatia como aliados à prestação do serviço, que as frentistas “invadiram” os postos de combustíveis. E não para atendimento nas lojas de conveniência ou recepção. Estão nas bombas, na calibragem de pneus, na lubrificação e na lavagem de carros, funções antes consideradas exclusivas dos homens, e dando conta do recado com igual - e até maior - competência que eles sem perder a delicadeza típica do sexo feminino.

Em Bauru, não é incomum vê-las trabalhando entre as bombas e mangueiras e misturadas entre os profissionais masculinos da área. Em um posto, considerado um dos pioneiros da iniciativa na cidade, a jovem Charlene Demar, 22 anos, deixou para trás o emprego em um restaurante para integrar, já há três anos, a equipe feminina de atendentes do estabelecimento, composta por outras quatro frentistas.

Depois de pequenos problemas de adaptação, principalmente com o funcionamento das bombas, logo superados graças ao auxílio dos companheiros de profissão, Charlene “engrenou”. Atualmente, ela considera que o sucesso feminino na atividade ocorre devido a maior simpatia e cordialidade no atendimento aos clientes. “Hoje eles melhoraram muito, mas antigamente os homens eram secos demais”, considera.

E para garantir a eficiência na prestação dos serviços, Charlene capricha na aparência. “Temos de estar sempre sorrindo, cheirosas e com um batom bem discreto”, resume. Outra frentista que também não mede esforços para manter o visual “alto astral” para os clientes é Daiana Rodrigues Pimentel, 26 anos, que conta sua receita de beleza. “Toda semana faço as unhas e escova no cabelo, além de cortá-lo todo mês”, diz. Na função há pouco mais de um ano, Daiana simboliza uma característica comum das frentistas: assim como os homens, é uma “faz-tudo”. “Não nos limitamos apenas ao abastecimento, pois também olhamos o nível do óleo, da água do radiador e damos uma força até de caixa”, afirma.

Mas no começo, apesar de familiarizar-se rápido com as exigências da profissão, Daiana revela ter “apanhado” para aprender a abrir as tampas dos tanques dos veículos. “São muitos modelos e cada um abre de um jeito. Já na parte mecânica tinha um pouco de noção, mas os meninos me ensinaram muita coisa também”, enfatiza. E, apesar de também entender que as mulheres atendem melhor os clientes, Daiana faz uma ressalva. “Realmente, acho que elas são mais atenciosas mesmo, mas nem todas são exemplo. Algumas parecem cobras de tão mau-humoradas que são”, brinca.

Quem também teve as mesmas dificuldades no início para compreender as necessidades técnicas da atividade foi Fernanda Tatiane Novaes, que travalhava como moni-tora escolar e, há cerca de seis meses, encara as bombas e mangueiras e, ainda, ajuda no geren-ciamento do posto. Para ela, a presença feminina nos estabelecimentos é necessária. “Elas são mais delicadas e tem um jeitinho especial de tratar os fregueses”, sustenta.

No entanto, ela pondera que o toque feminino no atendimento não a impede de executar determinados serviços. “Não vou deixar de olhar a água e o óleo por causa da unha ou do cabelo. Tem de separar as coisas”, frisa. Apesar disso, basta surgir uma “brechinha” que ela, mais do que depressa, vai conferir o visual. “Quando dá tempo, a gente rearruma o cabelo e vê se está tudo em ordem com a aparência”, conclui.

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Eficiência

A eficiência das frentistas na prestação dos serviços ao público é fato consumado. Prova disso são as palavras de gerentes, clientes e até mesmo companheiros de profissão masculinos. Daniela Almeida, gerente do posto bauruense onde atua a jovem Charlene Demar, é enfática. “Muitos elogiam o atendimento das mulheres como sendo superior ao dos homens, pois são mais atenciosas e educadas”, destaca.

O gerente Ricardo Loquete segue o mesmo raciocínio e ainda complementa. “Há clientes que só são atendidos por elas porque fazem questão disso”, afirma. Os fregueses, principalmente as mulheres, também “rasgam” elogios às frentistas. “Fico mais traqüila e à vontade quando as vejo num posto”, diz a aposentada Maria Luiza Alves Morais, cliente fiel do posto de Charlene.

E engana-se quem pensa que os homens fazem “beicinho” ou “torcem” o nariz diante da concorrência feminina na profissão. “Eles sabem trabalhar em equipe e, acima de tudo, são colegas e têm ótimo entrosamento. Nunca tivemos problemas nesse sentido”, garante a gerente Daniela.

O frentista William Israel considera que as mulheres têm plena capacidade para exercer a função. “Antigamente, elas limitavam-se apenas às áreas administrativas. Hoje já fazem de tudo e muito bem”, diz.

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Assédio

Como a beleza é uma das características das frentistas, o assédio masculino é algo que as meninas encaram diariamente. A jovem Charlene Demar conta que muitos confundem um bom atendimento com “segundas intenções”. “A maioria respeita e nunca tive muitos problemas, mas não gosto quando me esforço para atender os clientes com todo respeito e atenção e depois eles ficam pedindo telefone”, ressalta. “Mas levo numa boa e finjo que não é comigo”, acrescenta.

Charlene também adota estratégia especial para atender casais nos veículos. “Já chego e vou cumprimentando logo os dois de uma vez para a mulher não ficar com ciúme e ficar pensando bobagem”, revela. A tática tem sentido, pois o gerente de posto Ricardo Loquete afirma já ter presenciado pequenos “barracos” entre homens e mulheres dentro do carro. “Já vi mulheres olhando de cara feia para os caras e até dando tapinha nas costas como forma de reprovação”, conta.

Daiana Rodrigues Pimentel garante que, diante de uma “cantada”, apenas ouve e sorri, sem emitir qualquer comentário. “A gente não pode desrespeitar os fregueses. Assim, o tempo passa, os clientes voltam da mesma maneira e passam a te respeitar”, justifica.

Segundo a frentista, engana-se quem pensa serem os jovens os donos das maiorias dos gracejos. “Os mais velhos são os mais assanhados. Tem um que vem aqui todo dia e a toda hora, cedo, à tarde e à noite”, diz ela. Daiana afirma que as “cantadas” mais comuns são elogiar sua beleza e perguntar se o marido não tem ciúme a fim de descobrir se é ou não casada. E, para os “espertinhos” de plantão, ela já manda um recado. “Não tenho marido, mas não estou disponível.”

Já Fernanda Tatiane Novaes, loira de olhos verdes, também costuma ser alvo freqüente do assédio masculino. “Muitos perguntam se sou casada e brincam falando que o que eles querem o posto não pode lhes dar”, recorda. Nesses momentos, ela garante ser fundamental ter jogo de cintura. “Como não podemos tratar mal os clientes, o negócio é dar um jeitinho de sair da situação com elegância”, finaliza.