Utilizar corretamente os procedimentos logísticos resulta no aumento da competitividade das empresas, que por meio da otimização das estratégias de abastecimento, produção e distribuição de bens ou serviços ficam mais ágeis e eficientes. A afirmação é do presidente da Associação Brasileira de Logística (Aslog), Altamiro Carlos Borges Júnior.
Formado em administração de empresas pela Universidade Federal de Uberlândia (MG) e pós-graduado em marketing pela Fundação Getulio Vargas (FGV), Borges esteve em Bauru na última semana para ministrar palestra durante o 11.º Simpósio de Engenharia de Produção - Logística e Rede de Empresas, promovido pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).
De acordo com ele, o custo da logística no produto final das empresas ainda é muito alto no Brasil, em torno de 15% a 16% - podendo chegar a 30% em alguns segmentos. Em países desenvolvidos este índice varia entre 9% e 10%.
“Isso acontece porque a maioria das organizações ainda utiliza enfoques direcionados apenas a determinados departamentos ou áreas da empresa, e não na visão do fluxo total. O primeiro passo para conseguir otimizar os procedimentos logísticos é ter a visão do custo total. Sabendo equacionar todas as etapas envolvidas neste processo, desde o pedido feito ao fornecedor até a venda ao cliente, o empresário conseguirá reduzir o seu custo final”, afirma Borges.
Durante o simpósio, foi anunciado o desafio de formar a regional São Paulo-Oeste da Aslog em Bauru. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Qual é o conceito, a definição de logística?
Altamiro Carlos Borges Júnior - Como definição, a logística integra duas ou mais áreas operacionais das organizações. Ela trata do fluxo das informações dos produtos e serviços desde os fornecedores primários até o consumidor final. Portanto, está afeta à logística aquela grande questão no mercado de ter o produto certo, na quantidade certa, no tempo certo, no local certo, nas condições estabelecidas e ao mínimo custo.
JC - E dentro dessa definição, qual é a principal finalidade da administração logística?
Borges - Uma das maiores preocupações da administração logística está ligada à velocidade e competitividade das organizações. Fazendo um contraponto, nós vemos os conceitos logísticos serem utilizados pelas empresas de diversas formas. No estágio inicial, se entende logística como armazém e transporte. Num segundo estágio temos armazenagem, transporte, stops e pedidos. No terceiro estágio da utilização dos conceitos logísticos, as áreas já citadas integram-se com as outras atividades de uma empresa, como marketing, finanças, vendas, produção e também com clientes e fornecedores. Depois disso vem o que pode se chamar de etapa expandida, que é a cadeia de abastecimento. Nela, as empresas buscam toda essa integração dos fornecedores de seus fornecedores até os clientes de seus clientes. Numa visão mais compacta, as empresas podem ter uma logística para abastecer, uma para produzir e uma para distribuir (os produtos ou serviços). Essa é a visão que a maioria dos empresários tem, pois quando ele abastece é um procedimento, Já a logística de produção é mais ligada aos processos internos, e a de distribuição é diferente porque é pulverizada. O grande problema é que muitos empresários não têm nem mesmo essa visão compacta, o que gera impactos negativos para a empresa.
JC - Qual o custo da logística no produto final das empresas?
Borges - No Brasil ainda é muito alto, em torno de 15% a 16%, mas em alguns segmentos pode chegar até a 30%. Em países desenvolvidos gira em torno de 9% a 10%. Isso significa muito para o País se considerarmos um PIB (Produto Interno Bruto) anual de US$ 30 bilhões. Dá para fazer estradas, porto, ferrovia, dá para fazer muita coisa se nós visualizarmos a perda que temos com os custos logísticos das empresas no País.
JC - E quais itens compõem o custo logístico total?
Borges - Inserido no custo logístico existem os custos dos transportes, da armazenagem, dos estoques, do processamento dos pedidos, da tecnologia de informação embarcada e o custo administrativo. Ou seja, não adianta carregar rapidamente um caminhão aqui em Pederneiras e o veículo ficar três dias parado em Santos para descarregar, por exemplo. Então, todas as etapas que integram esse processo têm que estar funcionando bem. Nesse sentido, ainda precisamos melhorar muito no Brasil. Ainda existem alguns enfoques da logística direcionados a determinados departamentos ou áreas da empresa, e não na visão do fluxo total.
JC - De que forma a otimização da logística pode ser alcançada?
Borges - É preciso melhorar a aplicação dos conceitos logísticos em todas as organizações, e é para isso que existe a Aslog (Associação Brasileira de Logística). Essa associação congrega os profissionais da área de logística, estejam eles em qualquer tipo de negócio da nossa economia. Esses profissionais podem fazer a diferença na busca dessa integração, dessa otimização.
JC - Mas o que os empresários devem buscar para conseguir otimizar seus procedimentos logísticos e melhorar a performance dos negócios?
Borges - Muitas vezes, o primeiro passo é ter a visão do custo total. Muitos empresários não têm idéia disso. Eles vão saber responder de imediato qual o custo da armazenagem, qual o custo do transporte. Mas o custo total, com todos os seus componentes, são poucas as empresas que estão medindo e acompanhando esses custos dentro da organização. A segunda abordagem é saber o que se pode aumentar e diminuir dentro dessa equação para que o custo total seja menor. Por exemplo: eu posso aumentar um pouco o custo do transporte para reduzir o custo de armazenagem, o que vai gerar uma queda do custo total. Ou eu posso aumentar o processamento de pedidos para o caminhão não ficar parado esperando na fila do Porto, entretanto, reduzo o custo total. Essa visualização do custo logístico é muito importante para as empresas. Poucas têm isso ou por falta de conhecimento técnico, ou até mesmo por falta de um departamento de logística estruturado da empresa. Muitas vezes a logística está nas organizações, mas de forma diluída. Ou seja, quem cuida do abastecimento é um, da logística interna é outro, da distribuição é outro ainda, bem como quem cuida do transporte, da armazenagem, do estoque e dos pedidos. Aí você tem a logística sem ter o departamento de logística dentro da empresa.
JC - Qual a principal vantagem obtida pelas empresas por meio do uso correto do sistema logístico?
Borges - A logística pode dar velocidade e competitividade às organizações. Hoje, todas as empresas têm no atendimento ao cliente o seu ponto principal. Na maioria das atividades, há um número muito grande de consumidores insatisfeitos, seja no supermercado quando você não encontra tudo que quer, numa loja de roupas ou de calçados, no banco que tem uma fila enorme e o atendimento é ruim, nos órgãos públicos etc. A logística, pelo fato de trabalhar o encadeamento de todos os processos, pode proporcionar agilidade, velocidade às organizações. No campo da competitividade, o custo logístico hoje faz parte da maioria dos nossos bens e serviços. Ou seja, nas situações em que esse custo pode chegar a 30% de alguns produtos, não cuidar adequadamente da logística significa desperdiçar dinheiro. E como o ciclo total desse processo é o que interessa, há reflexos diretos na perda da competitividade. Um exemplo: há estudos mostrando que uma média de 40% dos pedidos feitos por supermercados não batem com o que está nas notas fiscais quando são entregues. Isso acarreta na necessidade de ligar na empresa para confirmar o pedido, pedir a alteração, gerar uma nota de devolução ou alteração de preço e esperar resolver o problema. Ter mais competitividade também significa atrair mais empresas e gerar mais empregos.
JC - A distribuição rodoviária é o ‘bicho-papão’ dos gastos das empresas ou isso é um mito? Na sua opinião, é viável por exemplo a revitalização das ferrovias para o escoamento de produtos?
Borges - O que se observa no uso dos diversos modais (rodoviário, ferroviário, aquaviário, cabotagem, aéreo) é a necessidade de adequar o uso do modal aos produtos. Então, para dizer que tal coisa é viável ou inviável, é preciso muito estudo, principalmente observando o custo total. Ou seja, não se pode olhar apenas o frete e quanto ele custará nos mais diversos modais. É preciso fazer o cálculo de todos os outros componentes do custo logístico. Normalmente, o que se tem em outros países mais desenvolvidos é o uso maior do modal ferroviário para determinados tipos de carga, mas sempre usa-se o rodoviário. No Brasil, as viagens acima de 1.000 km são feitas com freqüência pelas rodovias. Lá fora, costumam colocar o caminhão em cima do trem para viagens que percorrerão mais de 1.000 km. Isso é para ganhar velocidade, ganhar massa crítica, para não rodar com o caminhão vazio, o que gera improdutividade. Então, o que precisa é adequar a carga ao modal. Muitas vezes, como nos casos de cargas perecíveis, o transporte aéreo acaba gerando um custo total menor. As soluções também mudam de acordo com cada região do Brasil, que é um País de dimensão continental.
JC - Antes da Internet, os produtos tinham um tipo de penetração junto ao consumidor, que era por meio dos pontos-de-venda. Depois isso mudou, pois a própria Internet é um ‘ponto-de-venda’. O que corresponde a logística no custo de um produto vendido pela Internet?
Borges - As vendas pela Internet estão sendo introduzidas dentro do que há de possibilidade de uma logística que funcione. No Brasil, cerca de 70% das entregas são feitas pelos Correios. Entretanto, a Internet não se constitui num business, e sim em mais um canal de quem já tem o seu negócio estruturado. Business é comprar bem, vender e ter condições de entregar. Então, se não tiver isso completo, ou seja, se todas as atividades não estiverem sendo bem desenvolvidas, não é possível atender mesmo sendo pela Internet. O grande erro da economia digital foi exatamente esse, o de se tentar criar um negócio que não era bom para comprar, nem para vender, nem para administrar. Os poucos negócios que ficaram (na Internet) e aqueles que estão sendo estruturados estão sendo um canal a mais, uma forma a mais de chegar ao consumidor.
JC - Vai ser criada uma regional da Associação Brasileira de Logística (Aslog) em Bauru?
Borges - Nós anunciamos a criação da regional durante o simpósio, mas o que estamos fazendo é convocar os profissionais ligados à área de logística na região de Bauru para formar essa regional, que estamos chamando de São Paulo-Oeste. Ela coordenará as atividades da Aslog entre as empresas, instituições de ensino, órgãos governamentais e associações co-irmãs dentro de uma visão de plataforma logística na região de Bauru. Queremos tirar do empresário a visão de custo de transporte e passar para custo logístico. Esperamos ter uma grande adesão. Após o término da construção do novo aeroporto por exemplo, Bauru será uma das poucas cidades a ter uma plataforma logística completa. Aí, precisará haver um gerenciamento de tudo isso de acordo com os interesses da comunidade, e a Aslog tentará canalizar esforços para essa discussão mais ampla.