10 de julho de 2026
Articulistas

Arafat, a esperança de um povo!


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Ramallah, fevereiro de 2002, passava das 18h, o hotel quase vazio despontava num raio de 100 metros como a única construção ainda por ser destruída naquela terra arrasada. A comitiva internacional, ansiosa, aguardava a ordem para seguirmos ao quartel-general da Autoridade Palestina, iríamos nos encontrar com a figura histórica mais importante do Oriente Médio, Yasser Arafat. Os tanques de Israel por toda parte nos lembravam a todo instante que estávamos em zona de conflito, uma criança cruzou repentinamente a frente de nossa Van e me lembrei do dia anterior, quando, perto da hora do almoço, várias crianças saiam de uma escola próxima e iniciaram uma "batalha", eram 20 talvez 30 jovens de no máximo 15 anos de idade, com pedras em punho, seguiam obstinadamente um tanque de guerra israelense. Por uns trinta metros o tanque foi alvejado por cascalhos, paus e restos de escombros. Subitamente o tanque parou, o ranger da escotilha anunciou o soldado que, irado, deflagrou uma rajada de tiros de sua metralhadora em direção a aqueles meninos. Assisti atônito a cena, me abaixei ante a porta de entrada do hotel e torci para que ninguém estivesse ferido ou morto. O tanque acelerou e, num piscar de olhos, a resistência palestina saiu de trás dos entulhos e continuou aquela "batalha". Fiquei aliviado, pois nenhuma criança havia sido atingida pelos tiros, um menino ajeitando a mochila de escola olhou para mim e com uma pedra na mão gritou em Árabe algumas palavras. Vi nos olhos daquele menino a coragem de um povo que está sendo invadi

do.

Chegamos ao QG, vários tanques cercavam o quartel e fomos saudados como amigos pela guarda presidencial. Logo na entrada encontramos Rassam, um rapaz de 25 anos, que dias atrás nos acompanhara pelos campos de refugiados na periferia da cidade, campos esses que muito lembram o gueto de judeus em Varsóvia, na Polônia, porém, com uma diferença, estávamos no século XXI e os reclusos não estavam morrendo de fome por falta de alimento, mas por ingerir alimento estragado doados pela União Européia, Japão e França. Não foram essas comunidades que doaram alimentos estragados. O governo israelense recebe donativos do mundo todo para serem distribuídos ao povo palestino, o problema é que as autoridades israelenses se “esquecem” de distribuir dentro do prazo de validade, causando a morte de milhares de palestinos por diarréia, anemia e infecções generalizadas, pois os remédios também têm o mesmo tratamento alfandegário.

Foi nos autorizada a entrada. Na sala de reuniões, vários assessores nos saudaram, entrou Arafat, enigmático, com um belo sorriso no rosto saudando a todos com um “sejam bem-vindos à Palestina”. Pediu para que todos sentassem. Foi-se, então, a falsa imagem que nos é imposta todos os dias pala grande mídia internacional. Não era um homem embrutecido e rude e sim transpirava ternura. Relatou pacientemente as mazelas que seu povo estava sofrendo. De maneira pausada, se referiu a Israel com mágoa, mas sem jamais demonstrar qualquer ódio. Delineou suas metas de governo e os passos diplomáticos que foram dados com os tratados de Oslo e Camp David. Resignado, balançou a cabeça e, com ar mais austero, colocou as dificuldades impostas pelo governo norte-americano ao processo de paz, citou Ariel Sharon como um governante autoritário e que o povo de Israel, como o povo palestino, eram vítimas deste déspota.

Prestei muita atenção àquelas palavras e observei naquele homem a esperança do povo palestino que, invadido e massacrado, ainda resiste aos bombardeios constantes, às incursões militares e tudo mais a que o poder bélico tem a seu dispor. Pensei, me emocionei, me recompus na cadeira, levantei o braço e disse: “Gostaria de presentear o presidente do Povo Palestino, sr. Yasser Arafat”. Fui a seu encontro, abri o presente, e lhe disse: “Trago aqui a solidariedade do povo brasileiro à luta contra o sionismo e a invasão militar promovida por Israel. Este relógio de pedra significa a terra, a soberania e a independência do Brasil, espero em breve que o povo Palestino possua sua terra, sua soberania e sua independência.” Arafat me abraçou fraternalmente e antes que dissesse algo perguntei o que de prático poderíamos fazer pela Palestina. Ele colocou a mão em meu ombro e, firmemente, falou a todos: "Divulguem ao mundo o que vocês viram aqui, só assim coquistaremos a Paz." (Alex Gasparini é presidente do PMDB de Bauru, diretor regional da Fundação Ulysses Guimarães e membro da Federação Mundial das Juventudes Democráticas)