O número de cartões de lojas, magazines, supermercados e redes de combustíveis em circulação no mercado brasileiro já é maior do que o total de cartões de crédito. A Associação Brasileira das Administradoras de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) indica que a quantidade de clientes no País chegou a 51 milhões em outubro deste ano, enquanto estimativas das empresas apontam que já foram emitidos aproximadamente 54 milhões de cartões de loja.
O crescimento deste tipo de cartão, que permite ao consumidor realizar suas compras com crédito pré-aprovado, pagamento facilitado e prazos generosos, revela a ampla capacidade do mercado varejista em vender a prazo. O economista Fernando Pinho explica que, por meio dos cartões, as empresas conseguem financiar a compra dos clientes com seu próprio capital de giro, e assim reduzem custos com as operadoras de cartão de crédito.
“Lojas de departamento e supermercados são empresas com geração de caixa altíssima e pagam uma remuneração muito alta às operadoras pelas vendas realizadas com cartão de crédito. Eles perceberam que poderiam diminuir seus custos se tivessem sua própria administradora de cartões, e isso se tornou um avanço para o caixa das empresasâ€, explica.
De acordo com Pinho, as empresas que adotaram cartões próprios se fortaleceram financeiramente, pois elas próprias oferecem os produtos e o financiamento para o pagamento. “Atualmente, essas empresas têm lucro financeiro muito maior do que o decorrente das vendas de mercadoriasâ€, diz.
Além disso, o sistema de cartões fornece mecanismos e estratégias para a fidelização dos clientes. â€œÉ uma idéia muito boa que veio da Europa e dos Estados Unidos, praticada há muitos anos. O cartão cria uma espécie de fidelidade do cliente à loja, pois ele sabe que as compras e o pagamento serão facilitadosâ€, indica o economista.
José Antônio Rodrigues, diretor de cartões de uma das maiores redes de lojas de confecções do País, destaca que as vendas realizadas com o cartão próprio da empresa representam 75% do faturamento total. “O cartão é um facilitador, um meio de pagamento que substitui o tradicional crediário. Você faz o cadastro uma vez e não precisa preencher fichas ou fazer carnês. No caixa, o cliente opta pelas possibilidades de pagamento e recebe suas faturas em casa. Hoje, ele pode até consultá-las pela Internetâ€, ressalta.
Segundo Rodrigues, a rede de lojas trabalha com o sistema de cartões desde 1986 e já emitiu mais de 8 milhões de unidades no País, sendo que 50% estão ativos e são freqüentemente utilizados por seus titulares. Na região de Bauru, ele projeta que o número deve chegar a 100 mil cadastros até o final do ano.
Boletos e mais compras
Sávio Gomes, gerente de uma das lojas de uma rede de confecções, cama, mesa e banho, aponta que a procura pelos cartões próprios da empresa é grande justamente porque o cliente ou seus dependentes não são onerados em nenhuma taxa, como a anuidade dos cartões de crédito. “Temos cerca de 70 mil cartões ativos somente em Bauru, entre os clientes e seus dependentes. Trabalhamos de três a quatro anos com esse sistema e foi muito bem aceito em todas as nossas 15 filiaisâ€, diz.
O gerente explica que, assim como em outras empresas, os consumidores recebem um carnê no ato da compra, com as parcelas do pagamento já estabelecidas. “Fizemos uma pesquisa e os clientes indicaram que preferem levar o carnê para casa a receber os boletos posteriormente. Assim, eles têm melhor controle de seus gastosâ€, completa.
O economista Pinho aponta que a estratégia das empresas, em sua maioria, é de concentrar o pagamento dos boletos e carnês nas próprias lojas, forçando o cliente a visitar o local e incentivá-lo a fazer novas compras. “O cartão cria uma espécie de fidelidade do consumidor à loja, e as empresas preferem que o cliente pague os boletos na própria loja porque isso cria mais um canal de possibilidade de vendas. A pessoa vai pagar e acaba levando mais alguma coisa.â€
Maior controle
Pela comodidade nas compras e melhor controle das dívidas, a carteira da assistente administrativa Luciandréia Pereira é repleta de cartões de lojas, supermercados e magazines. Ela explica que prefere utilizar o serviço das lojas pela possibilidade de crédito pré-aprovado e de planejamento das compras e dos pagamentos.
“Você tem o seu limite e pode controlar melhor com os cartões. Eu consigo me planejar melhor com eles do que com o cartão de crédito, por exemplo. Eu já exagerei no cartão de crédito, perdi o controle porque todo lugar aceita e você acaba gastando maisâ€, argumenta.
Fiel a algumas lojas, a assistente administrativa garante que não carrega todos os seus cartões diariamente, justamente para não gastar à toa. “Mas deixo sempre alguns à mão para emergências ou compras do dia-a-dia. É básico ter um cartão de uma loja de confecções. Tenho um filho pequeno e compro roupas para ele praticamente todos os meses, porque criança perde muita roupa, precisamos sempre renovar o guarda-roupa. Nisso, o cartão me ajuda muitoâ€, constata.
Para Luciandréia, não há risco de exagerar nos gastos e se endividar exageradamente com os cartões. Ela indica como exemplo as lojas de eletrodomésticos e eletrônicos. “Não é um local onde você vai fazer compras todos os meses. Você se programa para comprar determinado produto e tem o crédito suficiente para isso. Com o cartão, é melhor do que ter de comprar em outra loja, fazer cadastro ou dar cheques pré-datadosâ€, finaliza.
Facilidades podem criar problemas
Ao contrário de Luciandréia Pereira, que se diz extremamente rígida e organizada com as compras nos cartões de lojas e magazines, Cristina (nome fictício), 28 anos, ainda tenta recuperar sua vida financeira e limpar seu nome após um período de descontrole nos gastos. Consumidora compulsiva, ela mantinha ativos três cartões de lojas de confecções e mais dois de magazines que trabalham com produtos eletrônicos e eletrodomésticos.
“Eu comprava, comprava, comprava... Não tinha limites. Quando descobri os cartões e vi que poderia ter um crédito alto, já que meu salário é bom, eu os requisitei em várias lojas e usava todas as semanasâ€, conta a professora, que pediu para não ser identificada.
Em algumas ocasiões, Cristina chegou a gastar mais de R$ 2 mil em apenas uma semana, “Nessa loucura sem limites, eu quis mudar meu apartamento, pois queria impressionar alguns amigos que vinham me visitar. Comprei um som novo, aparelho de DVD e uma TV de 29 polegadas. Mas não foi o suficiente, porque íamos para algumas festas e eu precisava de roupas novas. Esse foi o rombo que destruiu minha vida econômica (risos). Eu rio agora, porque estou me recuperando e já paguei quase tudo, mas na época, só choravaâ€, relata.
Ela assume que foi seduzida pelas facilidades oferecidas pelas lojas e alerta para os juros que são incluídos nas compras. “Você acha que está fazendo o maior negócio, mas os juros estão lá e são altos. Você vai dividindo em inúmeros pagamentos, mas não pára para somar e ver que, no final, a conta vai ser alta. Hoje, sigo a recomendação de amigos economistas e só compro à vista. Mantive só um cartão e um cartão de crédito para poder me controlarâ€, diz.
Segundo o economista Fernando Pinho, a melhor recomendação para os consumidores é ter prudência na hora das compras, não só com os cartões de lojas, mas com todos os sistemas de crédito: cheque especial, cartão, cheque pré-datado e crediário. “Eles existem para serem usados, mas com muita responsabilidade, principalmente em decorrência dos problemas na nossa economia, que têm achatado a renda da população de uma maneira muito perigosaâ€, orienta.
Com a proximidade do Natal e do final do ano, as pessoas tendem a aumentar seus gastos com compras, presentes e viagens. Para Pinho, essa é a época em que os consumidores necessitam de mais reflexão antes de gastar. “As pessoas têm uma renda a mais, com a chegada do 13.º salário, mas também gastam mais. Elas se esquecem que em janeiro vão ter outros gastos com impostos, escola, material escolar... É a época que em que se demanda um cuidado maior ainda para não esquentar a cabeça depoisâ€, conclui o economista.