O vermelho das bromélias se destaca em meio a tanto verde. O cheiro do mato e o frescor da manhã ativam o olfato. Barulho de pássaros, macacos e cachoeiras são ouvidos por aqueles que optam pela prática do trekking ou hiking, nome dado às trilhas curtas.
Se ausentar pelo menos por um dia dos transtornos das cidades é o caminho utilizado para o entretenimento dos aficionados por natureza e aos que na atividade encontraram a cura para problemas psicoterapêuticos.
Segundo uma pesquisa de 2002 da Organização Mundial do Turismo (OMT), enquanto o turismo cresce 7,5% ao ano, o ecoturismo cresce mais de 20%.
Um movimento de mais de 50 milhões de turistas em todo o mundo. Só no Brasil, segundo dados do ano passado do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), são mais de 500 mil ecoturistas que partem de suas casas em busca de aventura.
O trekking abocanha parte desse crescimento, principalmente porque as trilhas de um dia são uma opção barata de divertimento. “Muitas pessoas não podem ou não têm condições financeiras de sair de São Paulo por muito tempo. Ficar um dia longe da cidade é o suficiente para se sentirem aliviadas”, explica Yolanda de Oliveira, proprietária da agência TerrAzul, que trabalha há 12 anos com ecoturismo.
Para João Allievi, presidente do Instituto de Ecoturismo do Brasil, a conscientização ecológica nas escolas e a necessidade de os alunos vivenciarem o aprendizado das aulas de educação ambiental contribuem para alavancar o segmento.
“Há uma estimativa de que pelo menos duas vezes por ano 90% das escolas particulares de São Paulo levam seus estudantes para as trilhas da Serra do Mar ou Cantareira, para presenciarem o que viram em sala de aula. É uma maneira de despertar a consciência ecológica e disseminar o ecoturismo.”
A aventura de andar durante horas e horas, segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Esportes de Aventura (Abea) de 2002, conquista a preferência das mulheres. Das entrevistadas, 57% preferem gastar energia em caminhadas pela mata. A artista plástica Ema de Moraes, de 55 anos, é um exemplo disso. Há quatro anos, ela foi movida por um desejo inerente ao ser humano: a curiosidade. “Não tinha idéia do que era ecoturismo. Na minha cabeça, fazer trilha era caminhar tranqüilamente por ruas de terra”, lembra.
O Pico do Selado com 2.083 metros de altitude, na Serra da Mantiqueira, entre São Paulo e Minas Gerais, foi seu primeiro contato com os verdadeiros desafios que compõem algumas trilhas. “Travei nos últimos 10 metros. Não conseguia dar mais um passo sequer, mas fiquei muito emocionada com a sensação de conquista que me completava”, lembra Ema.
Com a visão aguçada pela profissão, Ema sempre dispensa, durante a caminhada, alguns minutos para observar as diferentes tonalidades de verde formadas pelo jogo de luzes e sombras. “Ao anoitecer, a escassez de luz vai criando formas no interior da floresta. Observar essa transformação é aguçar a criatividade”, ensina.
Água e amigos
O prazer de conhecer pessoas e a verdadeira paixão pelo contato com água, principalmente as cachoeiras, fez com que Nelson Peres Júnior, 34 anos, estudante de zootecnia, trocasse as academias de ginástica, “lugares quase sempre fechados”, como ele mesmo diz, por caminhos ladeados de árvores. “Todo esforço de uma trilha é para se chegar a um lugar esplêndido. E cachoeiras, para mim, são tudo”, diz Júnior. Cruzar bucólicos vilarejos no interior de São Paulo e ouvir os típicos interioranos é a outra satisfação para ele. “Quando se pede um copo d’água, por exemplo, o papo se estende e logo convidam para um cafezinho, um pedaço de bolo... É uma nova amizade à vista”.
Com o lema “família unida caminha unida”, Eneida Muller dos Santos, de 33 anos, Luiz Fernando dos Santos, de 38, e a filha do casal, Raisa, de 13, começaram a praticar caminhadas para vencer desafios e testar os próprios limites. “Depois de andar horas, subir e descer montanhas, o cansaço chega, mas nos sentimos renovados”, explica Eneida. Para a filha do casal, Raisa, uma adolescente, às vezes bate aquela preguiça, típica da idade, ao se deparar com os muitos quilômetros a serem trilhados. “Só lembro da minha cama no final da trilha, quando o corpo já não agüenta mais”, confessa a menina.
Os desafios da família voaram longe e foram parar num braço do trekking: o enduro a pé. “Minha função era contar passos. Passei uma semana antes contando meus passos envolta de uma piscina. Foi muito divertido”, lembra Eneida.
Tanto o enduro a pé quanto o rali a pé são uma mistura de esporte e aventura, parecidos com o rali de carros. Os participantes, geralmente mais de 600 pessoas dividas em equipes
têm de percorrer um caminho de 8 a 9 quilômetros num tempo preestabelecido pela comissão. Contar passos, marcar o tempo, cruzar brejos e túneis e também ficar atento aos códigos na mata fazem parte da façanha dos que conseguem concluir o percurso.
Desde que surgiu, em 1992, em São Paulo, o enduro a pé tem como objetivo difundir o trekking, principalmente para pessoas que nunca caminharam, e a preservação ambiental. “Somente realizamos as provas em áreas particulares. Uma das normas é não utilizar Áreas de Preservação Ambiental. Temos a consciência do dano ecológico que uma competição com um grande número de pessoas pode causar, mesmo sem querer, numa área preservada”, diz o presidente da Liga Nacional de Enduro a Pé e organizador do Campeonato Paulista de Trekking, Esdras Martins.
____________________
Preparo físico deve preceder aventura
Haja músculos para suportar cinco ou seis horas de aventura pela mata. A maioria das trilhas requer trabalho concentrado da musculatura das pernas e dos pés.
Sem esquecer que a coluna acaba sendo sobrecarregada pelo peso da mochila. “No “trekking”, utilizam-se músculos que não são usados no dia-a-dia. Daí a necessidade de se ter um preparo gradual e progressivo da musculatura antes da viagem para evitar as dores no dia seguinte”, ensina o fisiologista e coordenador do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte (Cemafe), Turíbio Leite de Barros.
Se você já marcou uma caminhada para daqui a uma semana, não se preocupe, ainda dá tempo de se preparar para enfrentar um caminho cheio de novidades para seu corpo.
Mas não esqueça que quanto antes começar a treinar, melhor será seu rendimento. “O ideal é começar a andar 30 minutos e aumentar cinco a cada dia, até completar uma hora. O terreno tem de ser o mais parecido possível com o da trilha.
Não adianta treinar no Ibirapuera, em local plano e sem obstáculos, e depois subir e descer a Serra do Mar”, diz Turíbio. O fortalecimento muscular, a famosa musculação das academias, também é primordial para ajudar as tão solicitadas pernas e costas a transporem os obstáculos sem muito desgaste físico.
Para muitos, uma chatice; para o corpo, minutos que valem ouro. O alongamento no início da trilha, aqueles movimentos de “estica e puxa” que acabam lhe colocando em posições nada confortáveis, serve para preparar e aumentar a flexibilidade da musculatura. Sem ele, o “trekker” corre o risco de sofrer lesões e torções, comuns a essa atividade. Já o alongamento no final da trilha, mesmo para quem está em frangalhos e sem energia, é essencial. São minutos primordiais para relaxar os músculos.