Fiquei sabendo desta história que foi contada por um integrante da equipe de pesca do Rancho do Romeu, que fica no rio Sucuriú, no Estado do Mato Grosso do Sul e não resisti à tentação de publicá-la, com a devida autorização daquele que me deu o respectivo conhecimento.
O rio Sucuriú nasce nos contrafortes da serra dos Caiapós perto da cidade de Taquari (MT), onde nasce um outro rio com o mesmo nome daquela cidade e vai para as bandas do Pantanal, enquanto o rio da nossa história vem teimosamente em sentido contrário, para as bandas de Três Lagoas (MS), desembocando as suas águas no nosso rio Paraná, divisa com o Estado de São Paulo.
Ali, próximo à sua foz, o nosso amigo Romeu possui um rancho e convidou, certo dia, o Toninho Stort, o Aparecido Pavan e o finado Tite para uma pescaria das boas. Mas eles tinham alguns problemas.
Quem tinha veículo capaz de levar a todos e ainda puxar carreta com barco, motor de popa e todas as outras trabalhas de pesca e cozinha era o Ricardo Lia que nem tinha sido convidado. Então o Romeu foi falar com ele com todo cuidado para não dizer que estava mesmo interessado só na sua caminhoneta Ford F-1000 novinha em folha:
- Vamos Lia, você é o meu melhor amigão.
- Não posso, respondeu o outro. Eu tenho um bar, um sítio com milhares de frangos para cuidar e, além disso, eu não estou “prevenido”.
- Não há problema algum por você estar “duro”, respondeu Romeu entendendo o drama do outro. Você pode cozinhar para nós.
E assim tentaram várias outras vezes, mas não adiantou.
Um dia reuniram-se e foram todos fazer uma última tentativa de convencer o Lia:
- Vamos Lia, você é o nosso melhor amigão.
- Mas eu só sei fazer arroz-doce, dizia sempre.
- Você não sabe fazer um arrozinho comum, um peixinho frito?
- Ah! Isso eu sei, mas é muito pouco.
Ricardo sem saber acabara de falar o que os outros queriam e então arremataram:
- Então está decidido. Você completa a sua cota nos levando com a sua caminhoneta e pronto.
Tudo combinado, a viagem foi uma maravilha e, quando lá chegaram, cada um deles já sabia o que ia fazer. O Lia, então, nem se fale, era o cozinheiro oficial.
No primeiro dia, arroz com peixe, no segundo, peixe com arroz, no terceiro também e nos outros dias seguintes, idem.
- Ricardo, disse o Romeu. Você não poderia variar um pouco o nosso cardápio?
- Estou fazendo o que combinados antes de sair, arrozinho e peixinho, respondeu o outro.
- Tá bom, mas como hoje é o último dia de pescaria, vê se faz pelo menos um doce de sobremesa. Que tal aquele arroz-doce, pediu Romeu.
O Ricardo, então, se pôs a realizar o desejo do amigo enquanto eles saiam para pescar.
Escolheu o arroz, lavou e reservou...
Pegou alho, cebola, cheiro-verde, pimenta malagueta, banha de porco, picou tudo e reservou...
Escolheu uma panela de ferro bem grande, pôs no fogão a lenha, misturou tudo, fritou tudo, botou em cima 5 quilos de açúcar, mexeu bem, encheu o resto com água, tampou a panela e foi formir.
À tardezinha, seus companheiros voltavam da pescaria quando viram de longe a fumaça do arroz-doce que estava sendo feito pelo Ricardo Lia. Pensaram até que o rancho estava pegando fogo. Quando chegaram, alguém teimou em experimentar aquilo e cuspiu longe, pois não havia como engolir. Então, foram acordar e reclamar com o cozinheiro que ainda saiu com essa:
- Eu esqueci de avisar vocês que eu só tinha as teorias, mas nunca fiz um arroz com sal nem com açúcar e que minha mulher só me deixou vir porque eu disse que não ia gastar nem um tostão e ia usar mesmo só a minha caminhoneta.
Eurico de Oliveira - Aposentado, pescador e contador de histórias