08 de julho de 2026
Articulistas

O desmonte do tabuleiro do ódio


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Passado o impacto inicial provocado pela morte de Yasser Arafat, algumas peças são movimentadas no tabuleiro do ódio em que se transformou o Oriente Médio. O presidente George W. Bush declarou, após um encontro com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, em Washington, que há grandes possibilidades de se criar um Estado palestino independente. “Tenho a intenção de utilizar os próximos quatro anos para investir toda a energia dos Estados Unidos nessa meta”, afirmou Bush. A declaração de efeito, no entanto, foi devidamente matizada pelo presidente: “A responsabilidade de chegar à paz vai depender do desejo dos palestinos de construir uma democracia verdadeira e da boa vontade de Israel em ajudá-los.” Blair reforçou: “Queria que isso ocorresse em quatro anos e creio que é possível”. Impressiona a inconsistência atrevida dessas lideranças. A crise endêmica do Oriente Médio reclama mais seriedade e menos superficialidade. Muito sangue tem sido derramado. Muitos judeus e palestinos têm sofrido as brutais conseqüências de um cruel jogo geopolítico. Na verdade, uma única peça será capaz de desmontar o tabuleiro do ódio: o perdão.

João Paulo II é, estou convencido, o único líder que chegou às raízes profundas da patologia que ensombrece aquele misterioso e mágico pedaço do mundo. Por isso, suas palavras merecem suscitar uma especial atenção. Em sua histórica viagem de seis dias pela Grécia, Síria e Malta, em maio de 2001, o papa mostrou, mais uma vez, a força da sua liderança moral e sua notável visão estratégica. Não foi por acaso que o papa escolheu como cenário a cidade-fantasma de Kuneitra, nas Colinas de Golan, que foi capturada por Israel em 1967 e destruída antes de ser devolvida à Síria, em 1974, para lançar seu mais forte apelo à paz. “Deste lugar, tão desfigurado pela guerra, eu desejo elevar meu coração e minha voz numa oração pela paz na Terra Santa e no mundo”, disse o papa, ajoelhado diante de um altar ocupado apenas por uma cruz de madeira.

João Paulo II, armado de uma obstinação impressionante, está convencido de que a paz no Oriente Médio não depende de acordos meramente políticos, mas de algo muito mais profundo: a estratégia do perdão. Acima dos ódios milenares que dilaceram aqueles povos, o papa pediu a Deus que ajude os povos do Oriente Médio a derrubar os muros de hostilidade e de divisão. De fato, o itinerário do perdão, exemplarmente percorrido pelo pontífice, tem conseguido derrubar barreiras que pareciam insuperáveis. A visita do papa à mesquita dos Omíadas, em Damasco, foi o fecho da sua estratégia da reconciliação. Com sua notável liberdade para falar, exortar e escrever, muito acima do que se poderia considerar diplomaticamente correto, João Paulo II repetiu o mesmo sucesso alcançado com sua viagem a Israel.

Perdão desinteressado é a chave para entender o pontificado de João Paulo II. É, no fundo, a linha fundamental de toda sua luta em favor da paz. A experiência pessoal do sofrimento físico e moral dá ao papa uma autoridade que não costuma estar presente nas estratégias puramente políticas ou nos rarefeitos gabinetes laicos e curiais. O papa fala, freqüentemente, em paz, justiça e unidade como “presentes de Deus”, tocando no ponto nevrálgico que faz das suas intervenções um acontecimento de enorme conteúdo e conseqüências políticas, embora ele reitere o caráter religioso da sua mensagem. A coragem para enfrentar temas espinhosos, apoiada no alicerce de uma incontestável força moral, faz com que a voz de João Paulo II ainda possa ser ouvida num território minado por séculos de ódio e de incompreensões.

Reconciliação e unidade estão no centro dos objetivos papais. A realização do sonho de João Paulo II não será fácil, mas a sua agenda da reconciliação proposta no coração de uma região corroída pelas divisões e pelo ódio, se bem acolhida, pode indicar que algo de novo e surpreendente pode estar despontando no horizonte da terra em que nasceu o Príncipe da Paz. (O autor, Carlos Alberto Di Franco, é diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética da Comunicação e representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil)