09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Hospital de 1º mundo


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A idéia de serviço público no Brasil está se transformando. É uma mudança lenta, cheia de obstáculos. Espero que tenha vindo para ficar. Ela acompanha a prática da cidadania, que ainda é tímida. O funcionário público brasileiro não consegue entender que existe uma relação direta entre o salário dele e o imposto pago pelo contribuinte.

Não é fácil a transição do coronelismo, onde as benesses do Estado eram distribuídas em troca de votos, como se o dinheiro público fosse propriedade particular de grupos políticos - para uma verdadeira democracia, onde o servidor público se orgulha de servir ao público que lhe paga o salário. Estes dois parágrafos têm relação direta com uma experiência pessoal recente que vivi em Bauru. Desembarquei na cidade às pressas, vindo de Nova York, depois de uma crise cardíaca que quase matou meu pai. O “seo” José teve sorte de ser transferido, pelo doutor Cristiano de Barros, para o Hospital Estadual da Unesp, que está completando dois anos de funcionamento. O hospital é administrado por funcionários e médicos da Faculdade de Medicina de Botucatu, o que parece ter sido motivo de controvérsia e reações negativas de alguns médicos bauruenses.

Freqüentei o hospital durante cerca de dez dias, como um visitante qualquer. Ainda que de licença, o olho de um repórter nunca se desliga. Observei o trabalho das enfermeiras, o atendimento dos médicos, as instalações, enquanto acompanhava o tratamento de meu pai. Há problemas, sim. A fila para um dos exames do coração, o cateterismo, é um deles. Bauru dispõe de apenas três aparelhos. E, pelo que entendi, há um pequeno grupo de médicos qualificados para fazer o exame. Segundo uma enfermeira, já houve paciente que esperou mais de um mês pelo exame. A espera parece ter sido reduzida para cerca de dez dias. Ainda assim é muito. O paciente ocupa um leito que acarreta um custo ao hospital. Dinheiro público. A espera pode implicar em risco para o cardíaco. Para solucionar este problema, contamos com políticos que têm demonstrado um interesse genuíno pela saúde da população, como o médico e deputado Pedro Tobias, um dos responsáveis pela instalação do hospital da Unesp em Bauru.

De outra parte, tendo visto o hospital por dentro, como um repórter “silencioso”, notei a dedicação dos funcionários, a existência de um eficiente sistema administrativo e o procedimento de médicos como o doutor Antonio Sergio Martins, chefe de uma equipe que mantém pacientes e parentes informados sobre opções de tratamento. Nos Estados Unidos, isso é um direito garantido por lei. A vantagem é que no Brasil a frieza dos médicos às vezes é substituída por uma palavra de incentivo, que pode funcionar tanto quanto um medicamento, como demonstrou o cardiologista Cristiano de Barros com tranqüilidade e calor humano.

Minhas duas filhas nasceram no hospital Lennox Hill, um dos hospitais de maior prestígio de Manhattan. Meu pai já fez cirurgia no Incor, em São Paulo. E eu, como repórter, já visitei hospitais de Bagdá aos mais sofisticados de Nova York. O hospital da Unesp, em Bauru, ainda que seja dedicado a pacientes do SUS, é de primeiro mundo. Se ainda houver em Bauru reações negativas ao trabalho do diretor-executivo do hospital, Emílio Carlos Curcelli, pelo simples fato de que ele veio de Botucatu, sugiro uma visita ao hospital. Num período em que a saúde pública, no Brasil, ainda é bastante precária, o bairrismo não pode ficar acima do direito dos pacientes de ter um bom atendimento.

Luiz Carlos Azenha - correspondente da Rede Globo em Nova York