08 de julho de 2026
Articulistas

2006 e a conjugação 'se'


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Ninguém é imbatível. Esta assertiva, uma das mais recorrentes na política, já começa a ser usada para abrir conversa sobre os horizontes eleitorais de 2006. Lembrada pelo ex-presidente Fernando Henrique a respeito das dificuldades que Lula terá para se reeleger, caso não tenha êxito com programas para as áreas sociais, mais que tentativa de fazer prognóstico sobre possibilidades, revela a satisfação dos tucanos com um desempenho governamental a que se podem atribuir os conceitos de continuísta em matéria econômica, desigual em ações administrativas, pouco inovador e dispersivo na área social, tenso nas relações com o Congresso e, arrematando o retrato, confuso sobre o que fazer para fixar uma identidade.

A verdade é que a reeleição de Lula já chegou a bater, há alguns meses, índices altíssimos de crença, algo entre 70% e 80% de possibilidades. Hoje, termômetros de medição de clima político, que medem a temperatura das circunstâncias, não lhe dão mais que 50% a 60%. Ao lado de resultados eleitorais negativos em praças estratégicas, o governo do PT enfrenta a síndrome da rotinite, essa doença que se manifesta pela completa ausência de novidades no corpo administrativo. Nem mesmo troca de ministros ou saída de quadros da alta administração (nove altos assessores em 15 dias) causam impacto.

A eficácia geral do governo implica diminuir vulnerabilidade e expandir força. No campo político, por exemplo, o primeiro “se” está voltado para a capacidade do PT em reunir as facções internas num mesmo espaço. Hoje, estão segregadas. Em segundo lugar, o governo há de ampliar e consolidar a base política de apoios.Quanto mais próximo o pleito, maior será o preço a ser cobrado pelo corpo político. Matérias de interesse central ganharão um plus na balança das cobranças. E, se a taxa de desgaste governamental for alta, o custo político subirá às alturas. Nesse ponto, aparece a segunda bateria de poréns. Preços superfaturados na área política acabarão criando rombos nos cofres da economia. Rombos que poderão ser dificilmente contidos, se (lá vem a conjunção de novo) a vulnerabilidade externa do País aumentar, a partir da emergência de alguma crise exógena. A solução da equação econômica passa por contas dos juros, saldos de exportação/importação, eventuais saltos na inflação e débitos de Estados e municípios.

Na área organizativa, o “se” conjuntivo se volta para o choque de credibilidade. Ou seja, trata-se do desafio do governo para encontrar uma alavanca capaz de mover a área social, por meio de programas impactantes, mudança de pessoas, perfis gerenciais mais completos. Os programas Fome Zero, Bolsa-Escola, Bolsa-Família e outros, se continuarem frouxos e criando polêmica (corrupção, desvios), afundarão a imagem governamental. Serão cobrados serviços mais eficientes, a partir da segurança e da saúde. Haverá recursos para tapar tantos buracos em tão pouco tempo? Se não conseguir diferencial nessas áreas, o PT acabará apagando os últimos vestígios de uma imagem fincada no terreno social. E se as demandas forem atendidas de maneira tênue, também não farão muita diferença.

O último “se” é o do apelo ao sistema cognitivo da sociedade. Nesse caso, a exigência será a de uma comunicação séria, real, objetiva. Há tempos que a embalagem do “pacote petista” procura encantar a sociedade com as cores de uma ética exclusivista, identificadora de um partido que tanto entoou o ideário da honestidade, da liberdade e da justiça. Caiu a máscara. Reis e ícones do PT são agora expostos em sua nudez, exibindo corpos tão disformes e putrefatos quanto outros. O povo cansou-se de encenação bombástica e de promessas que se tornam tão inócuas como autofágicas, principalmente quando confrontadas com a torrente de escândalos atingindo quadros petistas.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, é professor titular da USP e consultor político