Ele tinha apenas 9 anos quando decidiu que queria ser padre. Foi coroinha, enfrentou 13 anos de estudo em seminário, ordenou-se em 1958, no auge da juventude. Aos 72 anos de idade, hoje monsenhor, Almir José Cogiola conta como chegou a padre, fala das mudanças que acompanhou no catolicismo e no mundo nesses 46 anos de vida sacerdotal. Fala de suas perspectivas, de momentos marcantes e do que espera ver no futuro.
Jornal da Cidade – Quando foi que o senhor descobriu que queria ser padre?
Almir José Cogiola – Deus Nosso Senhor me chamou pela primeira vez quando eu tinha 9 anos de idade. Sendo coroinha em São Manuel, eu um dia disse para papai “Quero ser padre”. Isto devido aos padres missionários de São Manuel testemunharem sua vida de padre e sua vivência sacerdotal, aí brotou a vocação de seguir no sacerdócio.
JC - E qual foi sua trajetória, a partir dessa decisão?
Cogiola - Passei dois anos como coroinha, enquanto terminava o primário na escola. Com 11 anos, fui para o Seminário São José, em Botucatu. Comecei, então, uma longa caminhada.
O seminário é uma escola, só que em regime de internato. Vivi e estudei ali o primeiro ano, o segundo, até o sexto ano, quando se completa o seminário menor. Tivemos aulas como qualquer estudante, só que estávamos sempre juntos ali, em comunidade. Rezando muito, claro, mas só pelo estudo. Não tinha trabalho.
Esses seis anos de seminário menor foram um tempo muito importante para a vida da gente, porque foi moldando nossa personalidade. Saí do seminário menor aos 17 anos, já moço feito, estruturado para poder começar os estudos
superiores.
JC - Então, já voltados para o sacedócio.
Cogiola - Isso. Fui para São Paulo, no Seminário Central da Imaculada Conceição do Ipiranga. Para entrar, foi preciso prestar um quase vestibular, com provas de latim, grego e português. Então, foram três anos estudando filosofia - a filosofia pura e a chamada filosofia moderna.
Depois foram mais quatro anos de teologia, que é o estudo de Deus – Deus Uno, Deus Trino, o Mistério da Santíssima Trindade, toda a Sagrada Escritura. Eu tinha “só” seis aulas de Sagrada Escritura por dia. A teologia já é um estudo mais profundo, visando o sacerdócio.
Nessa época, o candidato já recebe todas as suas ordens sacerdotais. Nós tínhamos então, a tonsura, que é aquela “coroa” que antigamente os padres usavam no alto da cabeça indicando que eles já eram clérigos; tínhamos o hostiário para que pudéssemos abrir e fechar uma igreja; o leitor para ler na igreja; o exorcista para exercutar o exorcismo - só que isso precisa de uma autorização especial para cada caso; e o acólito, para ajudar à missa.
Mais tarde vêm as ordens maiores - subdiaconato, diaconato, presbiteato ou sacerdotes. Aí então completam-se os 13 anos de estudo - um tempo muito bom (...) porque todos tínhamos o mesmo ideal.
JC - E quando o senhor veio para Bauru?
Cogiola - Eu me ordenei no dia 13 de julho de 1958. No ano seguinte, fui designado para Botucatu, onde fiquei durante um ano como regente, disciplinário de um colégio. Depois fui designado para Ourinhos por mais dois anos.
E precisamente no dia 27 de janeiro de 1962 eu vim para Bauru para substituir um padre na Vila Falcão por 15 dias e já estou aqui há 43 anos. Foram 23 anos na Vila Falcão, depois 12 anos na Catedral e já oito anos aqui na Paróquia de Santa Rita de Cássia.
JC - Como é a vida de um padre?
Cogiola - Claro que um padre não é atirado. A gente vive na sociedade à sua maneira, com sua estrutura de sacerdote, seus desígnios. Mas o padre tem sua vida dentro da Casa Paroquial, com outros sacerdotes (...) Temos funcionários, que cuidam da igreja. E temos uma funcionária na casa, dona Célia, que cuida das refeições, da limpeza, das roupas - todos devidamente registrados. É uma vivência de casa como todo mundo, só que uma vida de sacerdócio, com muita ordem. Domingo passado, por exemplo, eu tive duas missas e 24 batizados pela manhã, mais 77 crismas à tarde.
(...) E não sou sozinho. Claro que temos família, tive pai e mãe , que já morreram - não sou filho de chocadeira (risos). Também tenho uma irmã, que mora em Belo Horizonte (MG), casada, com dois filhos, e um sobrinho-neto. E temos a comunidade, que forma para a gente uma grande família.
JC - Nesses 46 anos de ordenação, qual foi sua maior conquista?
Cogiola - Acho que foi a construção da Igreja de São Benedito de Vila Falcão. No começo, eu celebrava num salão atrás da igreja antiga. Ela foi demolida e lançamos a pedra fundamental. Demorou muito (...), mas quando completei 25 anos de padre, eu pude celebrar uma missa dentro dela. E foi justamente uma alegria minha.
JC - E qual foi a maior sua maior decepção?
Cogiola - Não é tão fácil dizer... Mas a maior decepção é quando a gente planta e não percebe a colheita. Muitas vezes a gente faz as coisas, mas não recebe o retorno que espera. Isso decepciona um pouco, mas a gente coloca tudo nas mãos de Deus.
JC: A filosofia religiosa mudou muito nesses 46 anos?
Cogiola - Seria estupidez dizer que não mudou nada. Eu acompanhei pelo menos dez mudanças importantes de conceitos na Igreja. Fui ordenado antes do Concílio Vaticano II, que foi a grande transformação. E tive de me adaptar. Fora isso, a cada ano vem um determinação nova. Agora, por exemplo, estou estudando o texto-base da Campanha da Fraternidade do ano que vem, que terá como tema “Felizes os que promovem a paz” e vai ser uma campanha ecumênica, não só da Igreja Católica.
JC - O que o senhor resgataria dos tempos mais remotos da Igreja?
Cogiola - Talvez o sentido de oração em comunidade. A reza do terço, as missas mais particulares, a bênção do Santíssimo. Algumas dessas coisas até já estão sendo resgatadas, porque o povo gosta disso e lhe faz bem.
Em termos de valores católicos, eu diria simplesmente que o caminhar da Igreja já é estruturado nessas transformações da sociedade, porque não devemos nunca permanecer num tempo antigo aquilo que pode ser modificado para melhor. E a Igreja não é estática, ela é dinâmica e, por isso, não retornaria nada, senão o espírito de fé nas pessoas (...) Com um Papa desses, não é possível perder nada.
JC - O senhor ficou muito conhecido na cidade fazendo um programa de rádio, não é?
Cogiola - A gente tinha uma linha direta com a Rádio Auri-Verde quando eu estava na Catedral. Quando passei para a Igreja de Santa Rita, deixei o programa por conta do pároco que assumiu lá, mas a rádio me procurou, pediram que eu fizesse e hoje eu faço o programa todas as segundas e terças-feiras, das 17h55 às 18h. São cinco minutos só e dá para falar uma barbaridade.
O enfoque do programa é justamente colocar a Sagrada Escritura do dia na vida do povo de Deus Nosso Senhor (...) Eu leio, depois contextualizo o assunto com o nosso tempo. Faço isso há mais de 20 anos.
JC - O senhor também fez um trabalho dentro de presídios. Como foi?
Cogiola - Esse projeto eu senti imensamente. Logo depois da minha saída, por aposentadoria, o governo cancelou esse capítulo, disse que não haveria mais capelões dentro dos presídios. Isso me doeu muitíssimo, porque por menos que a gente ajudasse, naquela época não estava assim. Eu ia lá no Instituto Penal Agrícola (IPA) de segunda a segunda - não existiam as penitenciárias 1 e 2.
Eu tive bons, ótimos, excelentes presos. Alguns faziam documentos perfeitos, como qualquer advogado. Um deles, cujo apelido era Barrabás, estava preso porque conseguiu desmontar um caminhão inteiro numa noite. Eu dizia que se ele pusesse toda aquela inteligência e capacidade para outras coisas, seria muito melhor (...)
JC - Que conselho o senhor daria para a humanidade?
Cogiola - Falta amor. Esse amor profundo das pessoas, eu por você. Você é minha irmã, você é imagem e semelhança de Deus, por isso eu nunca poderia pensar mal para você. Esse é o sentido do amor que eu tenho, com toda a humildade para com aquele que bate na porta, aquele que faz falcatrua. É isso que está faltando. A idéia de que somos todos filhos de um mesmo Pai.
JC - E que conselho o senhor daria aos jovens?
Cogiola - Eles deveriam ter mais consciência de que viver é importante, mas com reta intenção em tudo. Eu digo para o jovem “Filho, se você for bom, honesto e casto, você terá muito mais méritos do que eu que sou padre e tenho formação para isso, porque você está num mundo de feras e tudo nesse mundo leva ao mau caminho.
JC - E para os casais, as famílias?
Cogiola - “A vida de família bem vivida constrói a sociedade” - são palavras do Papa João Paulo II. E você sabe que estou fazendo muitas missas de 50 anos de casados? Muitas mesmo, graças a Deus. Claro que também a gente tem a decepção de casar num dia e descasar no outro.
JC - As pessoas não fazem concessões hoje em dia, não é?
Cogiola - Pois é... E a engrenagem precisa estar trabalhando, precisa de um pouco de azeite, de jeito... Mesmo assim, tenho 37 casamentos marcados para o ano que vem.
JC - Qual é o maior temor que o senhor tem hoje diante do cenário em que vivemos?
Cogiola - De que o homem perca ainda mais a sua própria consciência. Esse é meu maior medo.
JC - E o que podemos fazer para que isso não aconteça?
Cogiola - Por isso temos as pregações, a Igreja, o sentido de vivência cristã, a catequese, a busca de Deus, as pequenas comunidades. Esses dias recebi 40 perguntas dos crismandos. Algumas muito boas mesmo. Eu disse a eles que são dúvidas que brotam do coração e, se brotaram, que eles tenham forças para mudar pelo menos um pouco as coisas.
Porque, do contrário, todos verão Vietnãs em tudo, verão guerras por todos os lados. Não se mata uma pessoa tranqüilamente assim e hoje mata-se só para ver o tombo. Isso é o fim do mundo. Meu maior medo é a consciência das pessoas em relação às pessoas, porque os animais não fazem isso. Eles só matam para comer e se defender.
JC - Como o senhor avalia sua vida?
Cogiola - Posso dizer que sou um padre feliz, nos meus 46 anos de padre, vividos e bem vividos e muito trabalhados. Deus Nosso Senhor sempre me deu muita alegria. É nessa alegria que eu vivo meu sacerdócio e não troco por nada nesse mundo.