No final dos anos 70, estávamos no Postinho Acadêmico, nos Altos de Vila Falcão, tomando suco de cevada e jogando conversa fora. Eu, Carlos Zoroastro, Paulo Lauris, Renato Zaiden e o tenente do Exército Haddad. A conversa enveredou para a política, convocação da Assembléia Nacional Constituinte, liberdade de expressão, anistia ampla, geral e irrestrita e reconstrução da União Nacional dos Estudantes, temas que começavam a ser discutidos pela sociedade civil que começava a se engajar na luta pela redemocratização da pátria. O tenente do Exército, ao ver que os companheiros de mesa estavam defendendo o fim do regime militar, começou a chamá-los de comunistas, agitadores, subversivos e terminou por dar voz de prisão aos quatro.
- Vocês estão presos! Fiquem quietinhos que vou chamar a viatura!
E saiu em busca de um orelhão de onde pudesse chamar a polícia e levar para o lugar merecido – em sua ótica – os “perigosos” frequentadores do Acadêmico.
Os quatros se entreolharam, pagaram a conta e saíram do Postinho, indo continuar sua jornada etílica na antiga Casa Verde, muito próximo do local. Riam com a atitude do tenente, quando vêem chegar a viatura da polícia do Exército solicitada pelo oficial, que ao não encontrar aqueles a quem dera “ordem de prisão”, começou a esbravejar em alto volume:
- Tá vendo! São uns bananas! Só servem para criticar em mesa de bar! Na hora que a autoridade se impõe, fogem rapidinho.
Talvez quisesse o tenente Haddad que ficássemos quietinhos no aguardo de seu retorno, correndo o sério risco de termos que parar de tomar o nosso sagrado suco de cevada de toda a noite.
Contada por Antonio Pedroso Júnior