08 de julho de 2026
Geral

Briga dificulta volta de crianças ao lar

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 2 min

Brigas, maus-tratos e fome. O ambiente carregado, de difícil reversão, é o principal motivo que afasta boa parte das 191 crianças e adolescentes que hoje vivem nas sete casas-abrigo instaladas em Bauru que atendem à crescente demanda das vítimas de desajustes familiares. Do outro lado do portão dos abrigos também há pais que rejeitam a volta dos filhos.

Observa-se, portanto, que o clima de rejeição transita numa via de duas mãos. Os filhos, em sua maioria, não querem conviver de novo no ambiente hostil e carregado, no qual imperam brigas, confusões, agressões físicas, situação agravada pela falta de comida. Os pais, geradores na maioria dos casos desse comportamento rebelde, também estão desinteressados no retorno dos filhos.

Sem solução

O promotor da Infância e Juventude, Lucas Pimentel de Oliveira, ressalta que há casos de abrigamento considerados insolúveis. Na Comunidade União e Amor (Comuna), por exemplo, há um garoto abrigado há sete anos. “É muito tempo. Não é morosidade da Justiça. É um caso de abandono. Cumpre ao Poder Judiciário e a entidade também tentar localizar uma família substituta”, diz.

Mas dificilmente isso irá acontecer. “As famílias que querem adotar optam por crianças com no máximo 2 anos de idade. O problema é cultural”, observa. O promotor lembra que a situação socioeconômica do País é forte colaboradora para o agravamento da situação.

“Temos as crianças pedindo dinheiro nos cruzamentos de ruas e avenidas. Vem a sociedade e pressiona. A sociedade, com todo respeito, é um pouco hipócrita. Ela não quer o adolescente lá. Exigi-se que o conselho (Tutelar) compareça com uma viatura para recolher todo mundo e colocar no abrigo. A sociedade não quer ver (na rua). E ela fica contente em não ver”, critica.

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‘Não quero ver meus pais’

Morando há um ano e cinco meses numa das casas-abrigo de Bauru, um garoto de 14 anos de idade, afirma, cabisbaixo, que não quer ver “nunca mais” seus pais. “Meu pai, que sempre chegava bêbado em casa, e minha mãe, sempre brigaram muito”, revela.

Ele conta que passou a viver na rua e começou a praticar pequenos furtos para sobreviver. O menor, que cursa a 6.ª série, comenta, enquanto empina uma pipa, que sonha em ser jogador de futebol. “Minha madrinha é a única pessoa que me visita. Acho que vou morar com ela”, diz, abrindo um sorriso de esperança.

Na mesma situação encontra-se um adolescente de 17 anos. Depois que sua mãe morreu, vitimada pelo vício do alcoolismo, a relação entre ele e seu pai se deteriorou. “Fui detido por roubo a mão armada. Passei quase dois anos na Febem”, relata. “Não tenho mais vontade de viver com meu pai”, afirma.

O adolescente tem como projeto, após completar 18 anos, deixar o abrigo e cursar desenho industrial na Unesp de Bauru. “Também vou me esforçar para comprar uma casa e viver a minha vida”, complementa.