08 de julho de 2026
Geral

'Caixinha' de Natal cria concorrência

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 3 min

A prática de pedir uma ajuda financeira extra na época de Natal, que já se tornou tradicional entre trabalhadores que atuam nas ruas diretamente com os cidadãos, como coletores de lixo, vigias noturnos e entregadores de jornal, entre outros, ganhou este ano uma concorrência inusitada: um desempregado resolveu testar o sistema de arrecadação que já está consolidado pelos “com emprego”.

Alcides Rodrigues Filho, 46 anos, garante que adotou a sistemática de distribuir nas caixas de correios das residências envelopes vazios com a mensagem do pedido de ajuda como um ato extremo. “É só pra não morrer de fome”, garante. Rodrigues Filho, que se diz doente e inválido, está desempregado há 20 anos e mantém sua família - mulher e quatro filhos - com “bicos” de coleta de papel e latinhas de alumínio.

Como nunca teve emprego fixo - afirma ter sido, enquanto jovem, vendedor de rua -, o desempregado diz não receber qualquer provento a título de aposentadoria por invalidez pelo fato de nunca ter contribuído com a Previdência Social. Morando numa casa de madeira alugada e com o telefone cortado por falta de pagamento, Rodrigues Filho diz que luta mesmo é para manter os filhos na escola. “Só estudei até o primário e não quero que eles (filhos) tenham um fim igual ao meu”, diz.

O desempregado diz que está fazendo apenas um “teste” desta sistemática de pedir ajuda e que por isso distribuiu poucos envelopes pela cidade - garante que a quantidade não passou de “uns trinta”, colocados aleatoriamente em caixas de correio. Admite que já teve algumas respostas positivas, mas se recusa a falar em valores. “Quando se usa a verdade, as pessoas ajudam”, diz.

Disputa

Os coletores de lixo da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) já tomaram conhecimento na nova concorrência e não gostaram da iniciativa do desempregado, justamente por acirrar ainda mais um “mercado” que já conta com categorias como a dos entregadores de jornal, vigias noturnos, entre outros. Isso sem contar com o que eles qualificam de “aproveitadores picaretas”.

O coletor Dirceu Alves Nascimento, 33 anos, diz que o dinheiro arrecadado nesta época do ano garante “um Natal melhor”. Segundo ele, os integrantes de algumas equipes chegam a arrecadar quase R$ 1 mil, fruto, segundo ele, do reconhecimento da população pelo trabalho dos coletores. “A maioria diz que nós realizamos um trabalho árduo e que realmente merecemos esta contribuição”, relata Nascimento.

Ele explica que, neste ano, sua equipe (motorista e quatro coletores) distribuiu cerca de 4 mil pedidos na sua região de atuação. Os próprios trabalhadores investem na confecção dos envelopes. “Este ano foram R$ 100,00 de envelopes, mais R$ 17,00 de carimbo”, diz, adiantando que a previsão de arrecadação é de cerca de R$ 900,00 por servidor.

O coletor Valdecir Rosa, 33 anos, admite que os ganhos são variáveis para cada equipe, dependendo da região onde ela atua. Segundo ele, em algumas regiões mais carentes da cidade, os coletores sequer fazem o pedido. “Mesmo assim, existem pessoas que nos perguntam por que não solicitamos a ‘caixinha’ de Natal”, revela, estimando um ganho semanal de R$ 25,00 por coletor em bairros da periferia.

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Vigilantes noturnos

Outra categoria que sempre aparece com pedidos de ajuda nesta época do ano é a dos vigilantes noturnos. Como a concorrência é grande e o contato com os moradores mais raro devido à jornada noturna de seu trabalho, os vigilantes admitem um ganho menor, mas nem por isso desprezível, que o dos coletores de lixo.

É o caso do vigia Eleandro Miguel Calixto, 29 anos, que trabalha em dupla com um amigo e estima que cada um deva receber algo em torno de R$ 300,00 com a ação. Ao contrário dos coletores de lixo, o vigia invoca sua condição de autônomo para classificar a contribuição como uma forma de 13.º salário.

“Tem pessoas que ajudam porque reconhecem a dureza e o perigo do nosso trabalho, mas mesmo assim tem gente que nos qualifica de simples aproveitadores”, diz Calixto. Ele ressalta que a receptividade, no seu caso, tem sido maior justamente entre os moradores de menor poder aquisitivo. “Geralmente é o rico que ‘desfaz’ do nosso pedido”, diz.