09 de julho de 2026
Cultura

Artigo: Despojamento


| Tempo de leitura: 3 min

Hora indefinível: já não é entardecer, ainda não é noite. Na sala em que me encontro, e que não digo minha, há penumbra e silêncio. Não há tristeza, apenas paz. Esse, o sentimento indispensável para um balanço de fim de ano no qual inventaríamos o que nos rodeia. E se prestarmos a atenção veremos que nada e ninguém nos pertence.

Trata-se de constatação tão absolutamente óbvia e correta que, se bem aceita, resulta na alegria interior tão desejada durante toda nossa vida, ainda que não tenhamos tido consciência disso, e por isso, talvez, tenhamos sofrido inutilmente.

O primeiro olhar passeia pelos objetos. Dispostos e inertes no lugar em que foram deixados coexistem, uns ao lado dos outros, alheios ao preço de mercado pelo qual foram adquiridos. Alheios à sua origem. Penso: qual deles é indispensável à minha existência? Nenhum, sou obrigado a reconhecer.

Ao contrário, podem ser roubados a qualquer momento e só morrerei (ou matarei) por eles se me faltar o mínimo de equilíbrio. Não nasci atrelado a eles, não os levarei em minha morte.

Detenho-me nas fotos. Ah! As fotos! Também elas, inertes. Diferente, porém, da inércia dos objetos porque me reportam à vida. Vida daqueles aos quais amei, daqueles aos quais amo, mas que também não me pertencem. Os que se foram, foram-se sem perguntar-me se estava pronta para ficar sem eles. Simplesmente foram-se. Os que aqui se encontram é fácil observar, são tão mais felizes quanto mais os deixo livres: livres de amarras, livres de cobranças, livres de comparações silenciosas, livres do peso de meu amor possessivo.

E, na medida em que os deixo livres, a relação se torna transparente e confiável e muito mais capaz de garantir a mútua doação. Ninguém está pagando nada, devolvendo nada, obrigado a nada. Simplesmente vive-se e deixa-se viver. O resto vem por acréscimo: compromisso, disponibilidade e serviço.

Não possuo opinião, ainda que opine, recuso-me a digladiar por ela. A história tem registrado mortes, com e sem glória, em nome de opiniões que o tempo provou serem inócuas. Estou aberto, no entanto, para ouvir os outros e partilhar idéias. Não possuo bens que a traça corrói, os bens que se encontram ao meu redor servem às minhas necessidades, até mesmo de gosto estético. Nada do que não me foi dado me fazia, de fato, falta para existir como ser e para ser - no mundo. Disponho, pois, de tudo.

Ao inventariar bens materiais sinto-me, pois, plenamente feliz e agradecido. Diante do infindável desfile de seres humanos amáveis que passaram por minha vida é justo reconhecer: todas as vezes em que o contato não foi feliz, de alguma forma o sentimento de posse se constituiu no grande vilão. Com a noite, a necessidade maior da luz, ainda que - no caso - artificial. Com a luz, volta-se à realidade, refeito e em paz.

Libertado no tempo e em tempo, com o espírito enternecido pela generosidade do Criador, desejo a amigos - presentes ou fisicamente ausentes - um Natal marcado pela bênção do encontro, de almas e corações.

.A autora, Maria Antonia Pires de Carvalho Figueiredo, é escritora, poeta e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte. / Especial para o JC