A situação do atendimento médico infantil em Bauru, que é considerada crítica em função de um déficit de pelo menos dez profissionais, admitido pela própria Secretaria Municipal de Saúde, pode ficar ainda pior. Nos últimos dias, segundo levantamento feito pelo JC, pelo menos quatro pediatras teriam pedido exoneração de seus cargos.
Não bastasse esse aparente movimento de “debandada†dos profissionais que prestam serviço à prefeitura, a pediatria municipal confirmou ontem que não oferece mesmo qualquer espécie de atrativo aos médicos: um concurso público para a área, que já tivera suas inscrições prorrogadas, fechou ontem com menos candidatos (três) que as vagas oferecidas (cinco).
Consultada, a Secretaria Municipal de Administração diz que, desde novembro, apenas dois destes casos de exoneração de pediatras deram entrada na pasta. No ano, porém, o secretário Everson Demarchi informa que já são dez os pedidos de exoneração desta especialidade. Dos quatro nomes levantados pela reportagem, no entanto, um não consta nos registros da Administração, o que pode elevar este número para 11 pedidos.
Os dados do setor de Recursos Humanos revelam que os problemas relacionados à pediatria não são recentes. Neste ano, segundo a Secretaria de Administração, já foram realizados dois concursos para a especialidade, um em janeiro, com três aprovados, e outro em maio, com mais quatro. Destes sete candidatos, apenas quatro aceitaram assumir o cargo. E destes, dois já estão entre os que pediram exoneração - ou seja, não ficaram sequer um ano no emprego.
O secretário João Sérgio Carneiro admite que, com as duas últimas exonerações oficiais, o déficit de profissionais da área subiu para 12 médicos. Ele rejeita, porém, que o atendimento de urgência, prestado no Pronto-Atendimento Infantil (PAI) e nas unidades descentralizadas da Vila Ipiranga, Bela Vista e Mary Dota, esteja prejudicado. “As consultas é que podem ser afetadas, mas isso também porque muitas pessoas recorrem à emergência para resolver questões ambulatoriaisâ€, justifica.
Além disso, Carneiro diz que eventuais problemas de atendimento são resolvidos com o remanejamento de pacientes para unidades que contem com mais pediatras disponíveis. Com relação à baixa procura pelo concurso, mesmo após a prorrogação das inscrições, ele culpa a falta de divulgação. “Muita gente não sabiaâ€, diz.
O secretário não admite que a questão salarial seja preponderante neste “desprezo†pela carreira e pelo concurso público. Para ele, o padrão de ganhos na prefeitura bauruense estaria num mesmo padrão ao de outras cidades. “O que falta a alguns profissionais é perfil para trabalhar como plantonista em pronto-socorro, que é um local tenso, cheio de problemas e dificuldades. A maioria não se sujeita a issoâ€, diz.
“Sem respeitoâ€
“Nós padecemos de um misto de pouco caso e falta de respeitoâ€. A opinião é de um médico pediatra que ainda presta serviço à prefeitura e, por isso, pediu para não ser identificado. Segundo ele, a atual crise no atendimento médico infantil em Bauru não estaria relacionada sequer às precárias condições de trabalho. “O problema mesmo é de relacionamento entre os médicos e seus superiores. Com tanto desrespeito, só podia dar nisso (exonerações e falta de candidatos no concurso)â€, diz o médico.
Ele relata que pessoas da administração municipal que estão assumindo cargos de chefia não teriam perfil para a função. “Antes, o chefe dos médicos era um médico. Agora, pessoas que até então só faziam o controle de freqüência de funcionários assumiram posições de comando e fazem pouco caso dos problemas da categoriaâ€, acusa. O pediatra diz que também já pensou em deixar o cargo, mas apenas não o fez por ter esperança que pelo menos a suposta situação atual de desrespeito seja revertida com a mudança de governo.