09 de julho de 2026
Cultura

Patrimônio ferroviário

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 3 min

“O serviço era pesado, os amigos eram muitos. Convivíamos como uma família.” A lembrança do ferroviário aposentado Bolivar Roberto Coelho, 74 anos, expressa o sentimento da classe de trabalhadores que ajudaram a construir a história das ferrovias Noroeste do Brasil e Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA).

Depoimentos como o de Bolivar estão presentes no livro “Nos Trilhos da Memória: Ferro e Sangue - Histórias de Vida de Ferroviários da Noroeste do Brasil e RFFSA”, que será lançado hoje, às 20h, na Estação Central de Bauru. A obra é a segunda parte da série iniciada com “Nos Trilhos da Memória: Trabalho e Sentimento - História de Vida de Ferroviários da Companhia Paulista e Fepasa”, lançado em setembro deste ano, dentro do projeto Ferrovia Para Todos da Secretaria Municipal de Cultura (SMC).

Resultado de um trabalho de pesquisa desenvolvido pela SMC em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e outras entidades, o livro reúne cerca de 25 depoimentos orais de ex-ferroviários da RFFSA e da Noroeste do Brasil.

“Tratamos de experiências dos entrevistados, desde a origem de seus pais, de sua infância, de onde viveram, até o trabalho nas ferrovias, passando ainda pelos relacionamentos sociais e atividades de lazer”, detalha o historiador Célio Losnak. Ele coordena a publicação da obra juntamente com Roberta Mathias, diretora de pesquisa e documentação da secretaria.

O trabalho de captação das entrevistas teve início no ano passado e foi feito por um grupo de estagiários da SMC e alunos da Unesp. “Os depoimentos dos ex-ferroviários proporcionam uma visão mais clara do começo até a privatização das ferrovias. Além da documentação histórica, são contados os sentimentos dos funcionários, de suas vidas e de suas relações com as empresas”, aponta o secretário de Cultura, Sérgio Losnak.

Para a ferroviária aposentada Helena Aro Sanches, 65 anos, seus 30 anos dedicados à ferrovia são sinônimo de profundo aprendizado. “A experiência foi ótima, desde a convivência com os colegas de trabalho até o crescimento profissional e pessoal proporcionado pelo trabalho”, diz. Feliz com a publicação do livro, ela também lamenta o sucateamento da máquina ferroviária.

“É uma tristeza o que ocorre hoje com as ferrovias. O transporte ferroviário é muito mais econômico e polui menos o ar do que a linha aérea e rodoviária. Vamos torcer para que ele volte a ser utilizado”, destaca Helena.

Reconhecimento

Além de serem documentos histórico-culturais do município - uma vez que a história ferroviária está intimamente ligada ao desenvolvimento de Bauru - os depoimentos de ex-funcionários ressaltam a importância dessas pessoas para a cultura da cidade, explica Célio Losnak.

“O livro trabalha como forma de reconhecimento dos ferroviários como parte do cotidiano histórico. Além disso, ele abre as portas para que a população possa ampliar e conhecer os agentes sociais que atuaram na constituição histórica do município”, diz o coordenador. “É um reconhecimento desse trabalho e a descoberta do que os ferroviários ajudaram a construir”, acrescenta Roberta Mathias.

Todo o material transcrito durante o período de entrevistas fará parte do Acervo de Memória Oral. A previsão é de que o órgão seja implantado pela SMC no ano que vem. Outra atividade inclusa no Ferrovia Para Todos é a publicação de um terceiro livro sobre os tempos da ferrovia, com ênfase para a construção das estradas e empresas. A obra ainda não tem prazo para ser lançada.

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Preservação

Existente há três anos, o projeto Ferrovia Para Todos desenvolve um programa no setor ferroviário, destacando a questão do patrimônio histórico-cultural e a história ferroviária do município. O objetivo é envolver a sociedade bauruense para que a ferrovia seja vista e entendida como parte fundamental na formação da identidade cultural de Bauru.

Além da preservação da memória oral dos ferroviários, o projeto desenvolvido pela SMC em conjunto com a Unesp e Novoeste S/A, pretende restaurar composições ferroviárias. Já foram recuperados a Maria-Fumaça, um carro de passageiros e outro carro-dormitório por meio da união entre poder público, ferroviários aposentados e iniciativa privada.

• Serviço

Lançamento do livro “Nos Trilhos da Memória: Sangue e Ferro....”. Hoje, às 20h, na Estação Central de Bauru, que fica na Praça Machado de Mello. Entrada gratuita.