O debate político brasileiro desceu alguns degraus semana passada, quando o ex-presidente e o atual deixaram de lado as boas maneiras e protagonizaram um áspero diálogo: FHC tentando “provar” que o presidente da República em exercício é mais incompetente do que ele próprio... e Lula subindo o tom, ao atribuir a seu antecessor a condição de mulher ciumenta... A civilidade que marcou a transição do governo em 2002/2003 e a elegância no trato foram para o espaço, o que particularmente lamento, já que tenho sido pródigo em elogiar o comportamento dos dois naquele momento de nossa História.
Além de desagradável, trata-se de uma discussão inútil. A escolha do tema pelo ex-presidente (a competência) é altamente subjetiva, porque não existe nenhum teorema capaz de provar, em primeiro lugar, que “aquele que se julga mais competente seja mesmo o mais competente, qualquer que seja o conceito de competência que se utilize”... e, em segundo lugar, “que o mais competente (por qualquer critério) seja mais eficaz na mobilização das forças que produzem os avanços sociais e econômicos...” Em terceiro lugar (tirante o preconceito), não há nada que garanta a um PHD inteligência superior à de um torneiro mecânico...
O presidente Lula tem a seu favor resultados que o dispensariam de sair de seus cuidados para lidar com a ciumeira da oposição. Inicialmente ele deu um banho de competência ao desarmar a armadilha externa deixada pelo antecessor e ao retomar o controle da inflação, garantindo a estabilidade interna. Tal performance despertou uma ponta de inveja na comunidade tucana, cuja principal aposta era que o Brasil seguiria os passos da debacle argentina nos primeiros meses do novo governo. Esse “virtuoso” sentimento aumentou muito com a recente divulgação dos dados do crescimento do PIB em 2004, que deverá ficar entre 5% e 5,2%, acrescido de dois destaques da maior importância: 1) os investimentos na produção estão crescendo e 2) as despesas do governo estão com crescimento perto de zero.
Em apenas 24 meses, portanto, o governo do torneiro mecânico realizou um crescimento jamais alcançado em 192 meses de governança dos PHDs que se apresentavam como portadores de uma nova ciência econômica. Na realidade, eles simplesmente seguiam a orientação do FMI, que os livrou de quebrar em 1998/2000 e 2002. Depois de um primeiro ano de correção amarga, a política econômica de Palocci/Lula tirou o País da estagnação que vigorou praticamente nos últimos dez anos. O Brasil termina 2004 com crescimento industrial, extraordinária expansão da agricultura e do comércio exterior (com simultâneo aumento do consumo interno, embora em ritmo mais modesto) e principalmente com o início de recuperação dos níveis de emprego e da renda salarial.
Todos os indicadores econômicos neste final de ano mostram que o Brasil melhorou e muito! É risível, portanto, tratar isso como “incompetência”... O confronto de resultados é altamente favorável ao governo do presidente metalúrgico. (O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP - e-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br)