Os países ditos adiantados soltam ondas consumistas e os periféricos surfam nelas. A palavra “metrossexual” foi criada pelo publicitário inglês Mark Simpson em 2002, para denominar o homem que se importa com a moda, gastronomia, e elegância. Junção de heterossexual com metropolitano, o metrossexual gosta de um bom vinho, freqüenta academia de ginástica para manter-se em forma e ter o corpo “malhado”; adora se enfeitar, ir ao cabeleireiro, usar adereços, pintar e tratar as unhas, mas não é “drag-queen”. É desprovido de plumagem, mas gosta de usar roupas de marcas ou grifes famosas. Os metrossexuais são simpatizantes da cultura gay, mas não são homossexuais. Adoram uma plástica e botox. São, antes de tudo, narcisistas.
Bastou uma reportagem no The New York Times para o “novo homem” ganhar o mundo. E, pelo jeito, já chegou na província. Moro num bairro cheio de salões de beleza e noto, nas minhas andanças, que a clientela masculina é cada vez maior.
O protótipo do metrossexual é o jogador inglês do Real Madrid David Beckham, que usa brinquinhos de diamantes e as calcinhas da sua esposa, a ex-Spice Girl Victoria Addams. A sensação do Museu de Cera de Londres é o Presépio onde cópias do atleta e esposa aparecem de São José e Virgem Maria. Bush, Jacques Chirac e Tony Blair são os Reis Magos. Era só o que faltava... Querem demolir o estereótipo do macho dando a eles ares de santidade e fazer aflorar “a porção mulher” que todos nós temos, como atesta a canção de Gilberto Gil. Pelo menos estaremos livres do metrobagual, o “eu sou é macho!”, brasileiro que enfia a mão no bolso para coçar o saco em festa e acha que está disfarçando; arrota na mesa e em casa nunca baixa a tampa da privada. Se é de Bauru, ainda assiste jogo do Noroeste. O Manual do Metrossexual lançado em outubro nos EUA dá muitos exemplos de como deve ser o homem moderno. Um deles: “Nunca estale os dedos em um restaurante para chamar o garçom. Faça um delicado aceno”.
Vitória do feminismo. Da mesma maneira que as mulheres dos anos 70 e 80 se libertaram, agora, pelo menos, os homens se emancipam da gaiola machista de uma maneira positiva. Há que se reconhecer. As mulheres querem do seu lado um cara boa pinta, bem cuidado, cheiroso, de peito liso mesmo que isso custe o sacrifício da cera quente (ai, ui) para livrar-se dos pêlos do tórax.
O que o comércio, a indústria e os prestadores de serviços querem é faturar mais. A antiga moda (re)produzida, repressora e voltada para a masculinidade impermeável vai ganhando tons mais claros através do consumidor capitalista. O impassível e “largadão” heterossexual não compra nada. A descoberta do homem mais delicado, feminino, “mas sem assumir uma postura feminina”, segundo os pesquisadores, já fez aumentar em 30% a clientela masculina dos cirurgiões plásticos no Brasil. Baixou o consumo de cerveja e aumentou o de cosméticos. Também está em baixa o agrobói que começava a despontar com seus cinturões, chapéu de aba larga, botas e a panca de quem salvou o País com a exportação de bens primários. Logo estarão circulando por aqui as revistas dedicadas ao homem moderno que detesta pasto e plantação de soja. Estarão cheias de matérias sobre esfoliações e tratamentos estéticos para atender a nova demanda.
Da minha parte, caipira de Marília, jamais poderia imaginar que fosse terminar meus dias dividindo o pote de creme anti-rugas com a patroa. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)