10 de julho de 2026
Saúde

Psicóloga sugere revisão dos sistemas

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Para a psicóloga Maria Lúcia Nejm de Carvalho, é preciso que a sociedade promova maior integração entre seus sistemas para que o estilo de vida das crianças melhore e a obesidade, conseqüentemente, deixe de ser um problema tão recorrente. Em sua tese de mestrado, ela defende que existe uma interinfluência recíproca e constante entre esses sistemas. Por isso, todos, segundo ela, precisam ser revistos.

“Investir mais em áreas públicas de lazer nos bairros e na segurança dessas áreas poderia ajudar”, sugere. Ela comenta que muitas mães prendem seus filhos em casa porque não confiam em deixá-los freqüentar praças e bosques. Elas alegam medo da violência, já que muitos desses lugares são freqüentados por vândalos e usuários de drogas.

Sem a opção de brincar nas praças, a criança fica restrita ao ambiente doméstico. Algumas ainda moram em casas com quintais e têm vizinhos ou irmãos com quem brincar. Mas há os que moram em apartamentos ou não têm companhia para brincar.

“Uma criança que permanece, no sistema familiar, assistindo à televisão por longos períodos, poderá diminuir o tempo de exposição (à TV), caso lhe sejam oferecidas oportunidades para a realização de atividades físicas nos diferentes sistemas de que faz parte”, comenta.

No entanto: “Os equipamentos públicos, sem condições inadequadas de uso e sem garantias de segurança, podem retroalimentar a insegurança e o medo das famílias, de tal forma que permaneçam sem utilização”, acrescenta.

Ela alega que é preciso oferecer à criança mais oportunidades de brincar e esse é um dever de todos os sistemas, não só da família. As autoridades municipais podem melhorar os equipamentos de lazer nos bairros, a escola pode incrementar as aulas de educação física e criar momentos recreativos no intervalo entre as aulas – monitoradas por professores ou não, e assim por diante.

Saúde pública

Outro sistema analisado pela psicóloga foi o atendimento prestado às crianças nas chamadas Unidades Básicas de Saúde (UBS ou postos de saúde). “Eles desenvolvem um trabalho muitíssimo bom e sério em pediatria geral. Porém, não há nenhum trabalho específico para a prevenção e o tratamento da obesidade”, salienta.

Segundo ela, os prontuários médicos das crianças pesquisadas mostrou que falta um instrumento específico na rede pública para o diagnóstico de obesidade na infância, com conseqüente demora no diagnóstico e na intervenção da doença. Para ela, falta um projeto mais específico na saúde pública para o controle e o tratamento da obesidade.

Integração

A pesquisadora diz ter constatado que o atendimento público não considera as realidades concretas das crianças. Dessa forma, nas consultas, o profissional - médico ou nutricionista - pode até orientar que a criança deve evitar repetir na hora das refeições, bem como pular refeições.

“No entanto, quando essa mesma criança está inserida na escola, ela pode comer, por exemplo, polenta às 15h, quantas vezes ela quiser, independentemente de ter almoçado ou não em sua casa”, destaca.

E isso não ocorre só no posto de saúde, como observou Carvalho, mas também na própria família. “Aquela mãe, que na consulta foi orientada a não permitir à criança pular refeições, vai forçar essa criança a jantar, mesmo que esta tenha comido e repetido a merenda na escola e diga não estar com fome. A mãe pode ficar com receio de dar essa autonomia a ela”, comenta.

Indagada sobre o papel social da merenda escolar, que é a única refeição no dia para muitas crianças carentes, ela reitera a importância da merenda, mas sugere uma simples mudança. “Por que não oferecer a merenda, então, às 12h, na entrada ou saída dos alunos?”, sugere. As que saem iram para casa já alimentadas e as que chegam iram para a escola sem o almoço.

“Cada um dos sistemas, isoladamente, estabelece regras próprias, que muitas vezes são impostas à criança. O que não quer dizer que serão cumpridas. Ao contrário, a criança pode aproveitar essa cisão para burlar as regras em seu favor”, adverte.

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Epidemia mundial

O crescimento desenfreado da obesidade por todo o globo terrestre tem dado à doença o status de epidemia mundial.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 60% das 56 milhões de mortes registradas no planeta hoje são causadas pelas chamadas doenças não-transmissíveis. Problemas cardiovasculares, hipertensão e diabetes estão entre as principais e a obesidade é considerada um importante fator de risco para o desenvolvimento dessas patologias.

Em 1989, dados do Ministério da Saúde já mostravam que alguns graus de excesso de peso atingiam mais de 32% da população adulta no Brasil. E esses números têm aumentado ao longo dos anos.

E o que mais assusta é que os casos aparecem em todas as faixas etárias e em todas as classes sociais, ao contrário do que ocorria décadas atrás, quando o problema só preocupava adultos em países ricos.

Segundo o Ministério da Saúde, os primeiros dados de obesidade e sobrepeso em crianças e adolescentes foram levantados pela Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição, em 1989. A pesquisa constatou que entre adolescentes da região Sudeste era quase duas vezes maior o risco de a doença que no Nordeste.

De 1983 a 1994 houve um aumento de peso bastante acelerado nessa população entre 5 e 14 anos de idade e o que vem preocupando muito as autoridades é o aumento da obesidade em crianças menores de 2 anos na região Nordeste do País.

Estatísticas apontam que, nas últimas décadas, as condições de saúde das crianças melhoraram muito. Houve queda significativa de doenças infecciosas, graças às medidas de higiene e saúde pública (orientação, vacinação).

Já com relação à obesidade, não se pode dizer o mesmo. O governo observa que a vida urbana acarretou diversas mudanças de comportamento nas últimas décadas e elas afetaram diretamente os hábitos alimentares e de atividades físicas do brasileiro.

Alterações de hábito que começam cada vez mais cedo. As crianças foram perdendo quintais com a proliferação dos edifícios. Trocaram as brincadeiras de correr e pular por horas e horas de “chá de cadeira” diante da TV ou do computador. E não bastasse isso, divertimentos sempre regados a refrigerantes e salgadinhos ultracalóticos.

O mundo tem se mostrado preocupado com a obesidade e já lança mão de várias medidas no intuito de coibi-la. Como a “Estratégia Global sobre Dieta, Atividade Física e Saúde”, lançada pela OMS em maio desse ano.

O Brasil não fica atrás. O Ministério da Saúde tem implementado várias ações preventivas, como a obrigatoriedade do rótulo nutricional e os Guias Alimentares da População Basileira. Mas uma solução definitiva para o problema depende mesmo de conscientização.