07 de julho de 2026
Ser

Piadas levadas a sério

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 10 min

Ela estava pesquisando propagandas de cigarro em publicações antigas quando as páginas de humor chamaram sua atenção. Trocou o objeto de estudo e desenvolveu uma tese de doutorado sobre o que as piadas dizem sobre o casamento e seus ‘atores’. O resultado foi apresentado mês passado na Universidade Estadual de Campinas Unicamp.

Professora da Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru, Gesiane Monteiro Branco Folkis fala de suas descobertas e mostra como as piadas traduziram e traduzem ainda a relação entre homens e mulheres no decorrer dos anos.

Jornal da Cidade – Por que analisar piadas?

Gesiane Folkis - Essa é a primeira pergunta que as pessoas me fazem sempre, porque todos partem do princípio que a piada não é coisa séria (...) Nós temos que considerar que a piada é um texto que traduz um discurso como qualquer outro texto. E embora ela tenha essa aparência de um discurso sem importância, uma simples brincadeira, na verdade ela acaba dizendo coisas que são extremamente sérias.

JC - O que despertou seu interesse pelas piadas?

Folkis - Essa idéia nasceu de uma pesquisa ao acaso que estávamos fazendo em revistas antigas, uma publicação chamada Jornal das Moças, das décadas de 1930 e 1940. Estávamos pesquisando o que diziam as propagandas de cigarro ontem, para comparar com o dircurso da propaganda hoje. E a página de humor nos chamou a atenção.

A revista Jornal das Moças era editada para as moças casadoiras, ensinava o que as solteiras deviam fazer para conquistar marido. Trazia moda, culinária, conselhos. E me chamou a atenção que numa revista voltada para preparar as moças para sua ‘missão mais sublime’, ‘a única ideal para mulheres’, aparecessem piadinhas que, de certa forma, não falavam bem do casamento, nem das moças, nem das esposas. \

Começamos a observar (...) Eu pensava: por que as piadas falam do que falam? De onde vem esse mal-estar que aparece ali?

JC - Então, a senhora mudou o objeto da pesquisa.

Folkis - Exatamente. Começamos com um processo de catalogação de piadas e fizemos isso em dois momentos. As antigas, de 1920 a 1950, e as contemporâneas, a partir de 1999 - aí já com uma abundância incrível de veículos que publicam piadas: jornais, revistas, Internet.

JC - A senhora escolheu analisar as piadas que falam de casamento. O que a senhora identificou?

Folkis - Primeiramente, partimos da seguinte questão: o discurso humorístico tem características próprias. Uma delas é o fato de se poder dizer sem receber sanções. Foucault, no livro A Ordem dos Discursos, diz que a linguagem é socialmente controlada, ou seja, podemos ou não dizer certas coisas em certos lugares (...) são os chamados limites do discurso.

A piada surge como mecanismo de burlar essas interdições do discurso. Primeiro porque ela não tem autor, o que permite, por exemplo, produzir um discurso racista. A piada que fala de negros, de deficiências, de homossexuais, de nacionalidades, das mulheres, do casamento. Elas são cheias de preconceitos e discriminação, mas ninguém vai preso porque contou uma piada.

Você sempre alega que é uma brincadeira - por mais chocantes e preconceituosas que elas sejam - e que só está repetindo o que ouviu. Se não há autor, não há alguém para se responsabilizar.

JC - Mas elas trazem opiniões que só são ditas a portas fechadas.

Folkis - Exatamente, discursos que já correm por aí. O preconceito sexual, os tabus da sexualidade - tudo aparece livremente nas piadas. Meu orientador, professor Sírio Possenti, que também estuda o discurso humorístico, aponta três razões para justificar as anedotas. A primeira é que elas tratam de temas que são socialmente controversos, polêmicos - a relação marido e mulher, sexo, religião, homossexualismo, traição (...)

O segundo é que as piadas trabalham em cima de esteriótipos e, nesse sentido, a gente vê nas piadas de hoje valores que nem existem mais. Um exemplo é dizer que a mulher dirige mal. Embora as seguradoras prefiram fazer seguros para as mulheres, porque elas são mais cuidadosas e sofrem menos acidentes, as piadas continuam dizendo que mulher mulher dirige mal.

A terceira razão é que a piadas são sempre veículo de um discurso socialmente proibido, subterrâneo. Por meio dela você pode dizer o que não diria normalmente.

Também encaixei outra razão interessante, extraída do livro “O Mal-estar da Civilização”, de Freud. Freud diz que existem três fontes do nosso mal-estar. O primeiro é a superioridade incontrolável da natureza, o segundo é a fragilidade do corpo e o terceiro é a inadequação das regras sociais como fonte de sofrimento (...)

Eu acho que, num determinado momento, as piadas refletem essas inadequações. A regra diz ‘casar e ser feliz para sempre’, ‘ser fiel na alegria e na tristeza’ e as piadas contam um discurso que vai contra essas regras (...) E não há quem responsabiliza pela circulação de um discurso socialmente proibido.

JC - As piadas de casamento contestam todas essas virtudes, não é?

Folkis - Isso. Freud diz que as piadas nos permitem manifestar opiniões que não diríamos abertamente. Por exemplo uma da época em que os casamentos eram arranjados e havia agentes.

“O noivo, ficando desagradavelmente surpreso quando a noiva lhe foi apresentada, chamou o agente a um canto e cochichou-lhe suas censuras.

-Por que você me trouxe aqui, perguntou. Ela é feia, velha, vesga, tem maus dentes e olhos remelentos. Ao que o agente respondeu: não precisa baixar a voz, porque ela é surda também”. Então, as piadas serviam como uma crítica.

Elas também tem uma função social, segundo Bergson. Ele cita que a gente ri de tudo o que foge do normal ou nos incomoda: um gesto involuntário, um tropeção, um defeito físico.

JC - Na prática, os temas nunca são realmente engraçados.

Folkis - Isso. Possenti diz que a graça está no mecanismo lingüístico utilizado. Por exemplo: Você sabe o que o passarinho disse para a passarinha? Você quer danoninho? A criança, inocentemente, entende danoninho, o adulto entende ‘dar no ninho’, ou seja, o efeito fonético é que gera a graça, mas a piada, propriamente, não gira em torno de um tema engraçado.

Como aquela, quando o cantor João Paulo, da dupla João Paulo e Daniel morreu,

disseram logo: “Sabe por que o papa vem ao Brasil? Vem formar uma nova dupla sertaneja - João Paulo 2º e Daniel”.

Você está falando da morte de alguém, não tem nada engraçado. Só que a morte é um tema mal resolvido, um mal-estar da civilização.

JC - A senhora também pesquisou piadas para crianças. O que descobriu?

Folkis - É, fui buscar isso, porque também encontrei piadas sobre casamento em livros infantis. E essas piadas já reforçam nas crianças esses esteriótipos que temos sobre casamento (...) Há piadas inocentes, mas nenhum discurso é inocente. Veja essa.

“Maluquinuo e Julieta, teve um dia que os dois brigaram e trocaram ofensas que só ele seriam capazes de trocar. ‘Se você fosse casada comigo, eu te dava um copo de veneno’, disse ele. ‘Se você fosse meu marido, eu tomava’”. Ou essa. “Tarde da noite e Joãozinho de olhão aberto vendo televisão. A mãe não agüentava mais e berrou lá de dentro ‘Menino, vá dormir’, e ele respondeu ‘Mãe, não grita comigo que eu não sou seu marido.” Veja o peso dessas anedotas.

JC - Mas as pessoas aceitam, ouvem e repetem essas piadas. Por quê?

Folkis - Há uma espécie de acordo tácito sobre o discurso humorístico. Se ele aparece sobre a forma de piada, então pode se pronunciado, já que não é para ser levado a sério, é uma brincadeira.

E eu pergunto, o que pretende o discurso humorístico, burlar a exclusão ou revelar uma vontade de saber? Isso foi um ponto crucial na nossa tese. Num primeiro momento, baseamo-nos em Foucault, dizendo que a piada poderia estar tentando burlar as interdições sociais do discurso. Mas ele mesmo diz, em outro livro, que, historicamente, a humanidade sempre buscou a verdade das coisas.

Então, eu encaixo as duas coisas. É uma vontade de saber, mas não importa se sob a forma de discurso histórico, analista ou piada, seja onde for, a humanidade sempre falou daquilo que ela tem vontade de falar.

JC- Quais são os principais discursos das piadas?

Folkis - São reacionários, na medida em que tentam burlar o caráter coercitivo de certos discurso; são violadores das regras de controle, seleção e organização do discurso na sociedade; são reveladores de uma vontade de saber que não se detém diante dos tabus irrevogáveis.

JC - Quais são, então, as suas conclusões?

Folkis - Nós tivemos três conclusões sobre a análise do discurso, privilegiando os fatores históricos responsáveis pelas piadas de casamento e as teorias que falam sobre elas. Primeiro, que a instituição do casamento sempre foi polêmica porque envolve a relação entre pessoas. Então, encontrei piadas em 1920, alguém cita uma piada de 1800 e eu acho que elas fazem parte da história.

JC - O bobo da corte é histórico.

Folkis - Justamente. Então, a história do casamento se perde na gênese dessas relações (...)

A segunda questão é que as piadas giram, também, em torno dos esteriótipos, principalmente na identificação dos sujeitos - marido, esposa, sogra. O papel da sogra é sempre criticado. Por que se fala tão mal das sogras? E é sempre o marido falando da sogra.

Essa mulher é mãe, que deve ser respeitada, que dá conselhos. Mas se essa mãe continua dando conselhos para a filha depois do casamento, ela interfere no casamento e fica estereotipada. Então, ela tem aquela imagem de mãe, mulher perfeita. Bastou virar sogra, que ela se torna megera (...)

Então, eu tiro uma uma conclusão. Em nível mais geral, buscamos em nossa pesquisa identificar os aspectos histórico-sociais que são determinantes nas relações entre marido e mulher nas piadas de casamento, quer dizer, de onde elas vêm?

Em nível mais específico, acreditamos que a sua principal contribuição é que não podemos descartar, ignorar o que as piadas dizem. Elas são uma evidência de que a sociedade, através de estereótipos, perpetua conceitos e preconceitos.

São a evidência da existência de temas sociais controversos que, por isso mesmo, são por elas abordados. São uma evidência da existência de discursos que, mesmo proibidos, teimam em burlar a interdição aparecendo na língua. São, finalmente, uma evidência dessa vontade de saber que sempre incitou, colocou nossas dificuldades e sofrimentos em discurso.

(...) Eu sou apaixonada pela análise do discurso, porque você percebe que nada é inocente. Eu acho uma delícia observar as falas, entender as posições discursivas, você passa a respeitar as pessoas a partir do que elas falam

(...) Eu aprendi a entender a piada como um discurso muito sério.

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Anedotas percorrem os séculos

• Entre noivos

- Por que tu não te casas comigo o mais depressa possível?

- Porque minha secretária proibiu-me de ter esposa bonita.

(Jornal das Moças, 1941)

• Apuros

- Querida, atende a este senhor. Ele me assaltou e não quer acreditar que és tu quem guarda o dinheiro.

(Jornal das Moças, 1941)

• Recorde

- A minha mulher, se tiver assunto, é capaz de falar um dia inteiro.

- Pois a minha, mesmo sem tê-lo, fala uma semana.

(Jornal das Moças, 1941)

• Desacordo

O marido: Esse bebê está insuportável! A esposa: Vou cantar uma coisa para niná-lo. O marido: Não, querida! Prefiro que ele fique chorando.

(Jornal das Moças, 1940)

• Comodismo

- Então, não te incomodas que a tua esposa cante no rádio?

- Absolutamente! Se eu posso mudar de estação...

(Jornal das Moças, 1942)

• Falta de educação

A atriz: Quando eu entro em cena, já todo mundo se acha de boca aberta. O marido: que falta de educação! Bocejar numa sala de espetáculo!

(Jornal das Moças, 1942)

• Galanteria

A esposa: Sabes que foi que me disse esse jovem: Que eu tenho uma beleza dos contos de fada. O marido: Claro! Esses contos costumam começar com ‘era uma vez...’

(Jornal das Moças, 1941)

• Indireta

O marido: Escuta, o nosso filho tirou-me dinheiro do bolso.

A esposa: Ora, João, como é que podes dizer isso? Parece até que me acusas?

O marido: Não, querida, eu não te acuso. Deixaram-me uns níqueis na carteira.

(Jornal das Moças, 1941)

• Impaciência

A dona da casa: Estou ansiosa para ver que presente o meu marido vai me trazer.

A visita: Hoje é dia do teu aniversário?

A dona da casa: Não, é que nós brigamos nesta manhã.

(Jornal das Moças, 1941)

• Aflição

- Doutor, não me oculte a verdade por mais triste que seja. Qual a doença da minha mulher? É grave?

- Gravíssima. O senhor não tem outro remédio senão comprar-lhe uns dois ou três vestidos para acalmar-lhe os nervos.

(Jornal das Moças, 1944)