Uma antiga frase destaca a diferença entre o estadista e o político: “O estadista pensa na próxima geração, enquanto o político pensa na próxima eleição”. Creio que todos nós, homens públicos, devemos sempre fazer uma autocrítica para checarmos qual das duas atitudes estamos tomando, se estamos preocupados com o progresso do Estado e com a felicidade de seus cidadãos ou se apenas estamos executando estratégias para garantir uma boa posição na próxima eleição.
Tenho em mente as múltiplas e freqüentes situações de impasse que tem paralisado o trabalho da Assembléia Legislativa, impedindo a votação de muitos projetos de interesse público. É natural que o Legislativo busque a discussão, o aprimoramento e a reflexão em torno das propostas apresentadas pelo Executivo. Isto faz parte da sua função e é a garantia da aprovação da sociedade, que o Parlamento deve representar constantemente. Mas, quando prevalece a prioridade eleitoral sobre o interesse público, esta função natural acaba se distorcendo e tornando-se seu oposto, não havendo mais a expressão do interesse coletivo e sim o sacrifício deste interesse às ambições mesquinhas e aos projetos eleitorais.
Infelizmente, a Assembléia ainda não consignou em seu Regimento Interno mecanismos capazes de fazer com que o abuso de um princípio positivo torne-se um freio aos objetivos mais elevados do Legislativo. Assim, resta apenas apelar ao bom senso de cada um e à pressão da sociedade para evitar este desvirtuamento da política.
É preciso lembrar que a principal vítima desta “Operação Tartaruga” que impede a votação dos projetos propostos pelo governador Geraldo Alckmin não é o PSDB, mas a sociedade. Em muitos casos a ação efetiva contraria o discurso bonito e repleto de “boas intençòes”, mas nefasto em seus efeitos.
Fala-se muito, por exemplo, de combate ao desemprego e de dar prioridade à educação, mas impede-se a votação de projeto autorizando a contratação, através de concurso público, de 39 mil professores.
Do ponto de vista da Educação a proposta é ainda mais nobre, gerando grande impacto na valorização do magistério, na qualidade de ensino e na qualificação profissional dos professores. Não é difícil imaginar o profundo interesse público deste projeto.
Para este segmento da população, a existência de um ensino público de qualidade para seus filhos é a melhor, senão a única, oportunidade de melhorar a sua vida, enfrentar os desafios das crescentes exigências de qualificação profissional. Até mesmo uma vida mais saudável pode ser propiciada pela escola de qualidade porque já está demonstrado que o acesso à informação é uma das políticas de saúde pública mais eficientes e que os indicadores sociais evoluem positivamente conforme a escolarização avança.
Mas nenhuma destas preocupações parece estar na mente de alguns parlamentares, que estão mais preocupados com as eleições e com os interesses corporativos de alguns segmentos organizados. Visando seus próprios interesses preferem garantir alguns pontos com alguns grupos de pressão e desgastar os adversários políticos a aprovar uma proposta que beneficia o conjunto da sociedade.
Em relação a esses deputados é possível apenas esperar que reflitam sobre suas responsabilidades que assumiram junto com o mandato, pelas quais também serão cobrados na próxima eleição, em 2006. Em relação à sociedade, só a sua organização e conscientização – sua expressão clara de que não aceita mais estes comportamentos mesquinhos – é capaz de contrabalançar as paixões políticas e a pressão dos grupos que se julgam no direito de prejudicar toda a população para garantir suas posições e seus interesses. Enfim, é de se esperar que eles estejam à altura da posição de estadistas que a população espera destes deputados, ao invés de se preocuparem apenas com a próxima eleição. (O autor, Pedro Tobias, é deputado estadual pelo PSDB e vice-líder do governo na Assembléia)