Para sair da situação em que se encontram, muitos pobres dos países em desenvolvimento terão de trabalhar por conta própria, em regime de microempresa. Independente de serem agricultores, comerciantes ou artesãos em pequena escala, os pobres devem poder criar sua própria empresa. Entretanto, no caso de muitos, a possibilidade de administrar melhor suas atividades e melhorar suas condições de vida se ressente da falta de serviços financeiros essenciais. De fato, 70% dos pobres do mundo carecem de serviços de crédito, poupança e transferência de dinheiro, que são fundamentais para criar e gerir micro ou pequenas empresas. É evidente que, para aliviar a pobreza de maneira sustentável, tanto os governos quanto o setor privado devem fazer sua parte.
Quando as pessoas muito pobres conseguem certo nível de renda e poupança, melhoram suas possibilidades de obter os serviços das instituições de microfinanciamento. As instituições financeiras que prestam serviços aos pobres deverão ser auto-suficientes, já que somente assim poderão atendê-los de maneira ininterrupta e integrar-se aos sistemas financeiros nacionais.
No caso das instituições oficiais, a debilidade das infra-estruturas financeiras e das redes de comunicação nas zonas rurais constitui o maior impedimento para atender a população pobre dessas regiões. Além disso, fica muito caro conceder empréstimos a populações espalhadas em uma superfície muito extensa em lugar de estarem concentradas em uma cidade.
Para que os serviços financeiros prestados à população pobre dêem bons resultados, é preciso adaptação às circunstâncias dessa população. O Fida ajuda instituições de microcrédito a trabalharem de maneira flexível e adaptarem seus serviços aos clientes das zonas rurais. Por exemplo, algumas reajustaram os prazos de amortização para que coincidam com os ciclos dos trabalhos agrícolas, enquanto outras se valem dos comércios e dos correios para facilitar as transações em localidades muito distantes entre si e reduzir gastos.
As famílias beneficiadas pelos serviços financeiros têm mais oportunidades de enviar seus filhos à escola, escolher o que melhor se ajuste às suas necessidades. O microfinanciamento é elemento essencial de toda estratégia de desenvolvimento que não se baseia em donativos, mas em aproveitar a capacidade das pessoas para solucionar, de maneira duradoura, seus próprios problemas. Se for satisfeita a demanda crescente dos pobres que necessitam de serviços financeiros essenciais, se conseguirão benefícios duráveis que justificarão o investimento de todos os setores econômicos. (O autor, Lennar Bagé, é presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola)