Antes da formação da sociedade, os homens viviam em constante guerra uns contra os outros, fruto do próprio estado da natureza humana onde a solidão era o calabouço d’alma. Nesse estado, os indivíduos não tinham ligações uns com os outros, vivendo cada qual fechado em sua esfera de interesses que se resumia na própria sobrevivência e em choque com seus semelhantes. Segundo Aristóteles, quando os homens passaram a agrupar-se socialmente e de forma organizada e não mais em meros bandos, objetivaram buscar um bem que os satisfizesse em suas necessidades básicas. Nesse momento, quando o conhecimento individual passa a ser compartilhado com outros em prol do grupo social organizado, temos que o resultado tornou-se mais eficaz na distribuição de atendimento às necessidades básicas desse mesmo grupo.
Assim surge o contrato político entre os homens, existindo a normatização das atividades do grupo social, seu reconhecimento e escolha do líder que determinará o cumprimento do estabelecido. Todos unidos numa só manifestação de vontade com normas próprias de funcionamento e comportamento social dão surgimento ao Estado, do latim civitas, com tamanho poder e força que a todos conforta na sensação de referência e integração. (...) Comprova-se tal raciocínio, pela simples constatação que o Estado Democrático somente pode agir mediante lei e esta é elaborada por políticos profissionais que deixam de atender as necessidades básicas da sociedade pela falta de obrigatoriedade de cumprimento das cláusulas do mandato outorgado através do voto.
Não é possível o desenvolvimento de um país na distribuição justa de suas riquezas, com um desenvolvimento racional e moderno sem a participação popular, fundamental nos interesses da nação, já que a mesma não se esgota simplesmente através do sufrágio universal. O interesse e a participação devem se dar através dos partidos políticos, das comunidades de bairro, dos conselhos comunitários, das pastorais de fé e dos sindicatos.
Como exemplo, podemos citar a complementação administrativa de uma prefeitura municipal em seus segmentos de secretarias executivas com conselhos comunitários formados por segmentos representativos e participativos da população afetos àquela área ou pasta, que determinam suas prioridades e fatias reais do orçamento municipal para atendimento das necessidades por ele detectadas. Esta participação popular não seria remunerada para não se desenvolver sua mercantilização, mas sim somente em busca da efetiva solução dos problemas atinentes àquela área. O prefeito municipal teria somente a participação política para representação da cidade e para dirimir os conflitos de interesses na distribuição das fatias do orçamento para as secretarias com os conselhos comunitários. Haveria a prestação de contas ao fim de cada exercício anual à prefeitura municipal por parte das secretarias com os conselhos comunitários e também à câmara municipal e, em caso de não aprovação das contas o envio ao ministério público para as denúncias de responsabilidade, tudo com o acompanhamento do Tribunal de Contas. A própria Constituição do Brasil promulgada em 5 de outubro de 1988 já demonstra um avanço nesse sentido, estabelecendo algumas modalidades de participação da sociedade nos destinos do País, tais como: propor projetos de lei; plebiscitos; referendo; formação de associações com fins lícitos; liberdade profissional e sindical, inclusive aos funcionários públicos, participação dos trabalhadores nos lucros e gestão das empresas; mandados de segurança coletivos etc.
Sem a participação popular, o Estado tende a ter uma forma de governo autoritária ou paternalista, a qual de uma forma ou outra apenas isola o cidadão de seu desenvolvimento individual e coletivo, já que apresenta fórmulas próprias de inter-relacionamento social e político. O homem deixa de ser mero espectador da história, quando se organiza e passa a ter uma maior participação nos destinos de sua cidade, já que ela é um ente concreto, diferente do Estado que é ente político abstrato, tendendo a se aproximar mais da figura teológica do criador. É o homem determinando seu destino, o verdadeiro sentido da criação, sempre em busca de uma identidade que o integre cada vez mais com o planeta em que vive, deixando de ser um objeto inanimado ou coisa manipulável, mas sim elemento fundamental da vida, nascendo em decorrência uma nova sociedade, mais justa em favor dos interesses de todos. (O autor, Douglas Mondo, é advogado e escritor)