08 de julho de 2026
Bairros

Áreas contaminadas dobram em Bauru

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

O total de áreas contaminadas por chumbo ou resíduos de petróleo em Bauru passou de quatro para oito, conforme relatório divulgado ontem pela Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb). Seguindo a tendência estadual, o número dobrou em relação ao levantamento do ano passado principalmente em função da recente obrigatoriedade do licenciamento ambiental de postos de combustíveis.

Atualmente, eles lideram a nova lista. No Estado de São Paulo representam 69% dos casos e, em Bauru, 62%. Das oito áreas municipais, quatro são estabelecimentos do ramo. Uma quinta região, de responsabilidade da Novoeste, também teria sido contaminada por um posto de combustível instalado nas imediações da linha férrea.

A situação colocou as companhias na mira do Ministério Público, que até o final deste ano se reunirá com a direção local da Cetesb. “Vamos solicitar um técnico para nos auxiliar na análise dos documentos. Aí, vamos ter uma visão sobre o que é possível ser feito. Às vezes são coisas simples de resolver”, explica o promotor público do Meio Ambiente, Luiz Eduardo Sciuli de Castro.

No dia 10 deste mês, ele recebeu da Cetesb/Bauru um relatório apontando o problema, remetido por São Paulo. “Não me pareceram coisas gravíssimas, mas precisam ser resolvidas. Nós pedimos informações ao Departamento de Água e Esgoto (DAE) e não há contaminação de água subterrânea, nem do rio Batalha (responsável pelo abastecimento de 42% da cidade)”, acrescenta Sciuli.

O DAE confirma que a água produzida é potável para o consumo. Informa que somente acrescenta flúor e cloro para atender a uma portaria do Ministério da Saúde. A autarquia, que explora água do Aqüífero Guarani, ainda coloca um selo sanitário nos poços perfurados por ela. De acordo com a assessoria de imprensa, eles são isolados com cimento para evitar contaminação.

Mesmo assim, o relatório da Cetesb aponta que materiais nocivos ao meio ambiente e à saúde humana atingiram tanto as águas superficiais como as subterrâneas. Em alguns casos, a contaminação se limita ao interior da área de responsabilidade da empresa. Em outros, ela extrapola, como é possível verificar no estudo disponível no site www. cetesb.sp.gov.br.

O levantamento ainda mostra água de fundo de rio (sedimentos), mata nativa (biota), solo e subsolo impregnados por poluentes. O grau de contaminação não foi comentado pelo diretor da Cetesb em Bauru, Rogério Chini, que ontem não estava na cidade. Por celular, ele disse que abordará o assunto na próxima semana. Na ocasião, ele poderá esclarecer se existem outras áreas sob suspeita em Bauru.

Acidentes contaminam ferrovias

A Novoeste consta entre as oito áreas contaminadas em Bauru por causa de um acidente. De acordo com a assessoria de imprensa da empresa, o transbordo de combustível realizado por um posto instalado dentro das imediações da ferrovia foi responsável pelo problema, caracterizado um acidente.

“A Shell contratou uma empresa para fazer a remediação, que tem prazo de um ano para ser concluído. A situação está sob controle”, acrescenta a assessoria, para quem também está sendo recuperada uma área contaminada em São Manuel pertencente à Ferroban Ferrovias Bandeirantes S/A.

A estrada de ferro foi palco de um descarrilamento em dezembro de 1999. Na época, o acidente causou o vazamento de cerca de 75 mil litros de combustível, que atingiram uma das estações de captação de água da cidade, posteriormente interditada. (LLF)

Remediação já foi iniciada, garantem postos

As quatro empresas de combustível que figuram na lista da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb) já iniciaram ações de controle ou o processo de remediação da área contaminada. A iniciativa, que consta no relatório do órgão ambiental, foi confirmada pelos seus representantes.

O assessor de imprensa da Shell, Ricardo Davi, informa que desde meados deste ano, a região está completamente livre de poluentes, conforme análise que teria sido realizada pela própria Cetesb. De acordo com ele, foram cumpridas todas as exigências ambientais.

Já os representantes da Ipiranga preferiram não se manifestar. De maneira sucinta, apenas garantiram que os resíduos de petróleo (borra) que estavam enterrados no solo, já foram removidos. Anos atrás, essa prática (de enterrar resíduos lançados após a lavagem dos tanques) era adotada internacionalmente pelos postos.

Confirmam a informação tanto a Cetesb quanto o gerente de meio ambiente da Esso, Luiz Alberto Galvão Bueno. “A contaminação é resultado de práticas que eram recomendadas. Essa base (da Esso) é da década de 50. O processo de monitoramento e as avaliações não apontam risco às pessoas e ao meio ambiente. Hoje, até as gotas (que caem durante o transbordo) são contingenciadas, mas até a década de 90 não havia essa tecnologia”, esclarece.

O JC tentou contato com a Texaco em Bauru, Paulínia e no Rio de Janeiro, mas não conseguiu encontrar a pessoa autorizada para comentar o assunto. (LLF)

Empresas aguardam

A diretoria da Ajax está aguardando o resultado da última perícia que foi realizada no setor metalúrgico da fábrica de baterias, local interditado desde janeiro de 2002, quando análises constataram a presença de chumbo no ar, água e solo.

O metal emitido pela empresa contaminou 314 crianças. Como parte das ações de descontaminação, a prefeitura e a empresa rasparam a terra de ruas e quintais e aspiraram o pó de 164 casas. “Todas as exigências e o cronograma da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb) estão sendo cumpridos.”, informa a diretoria da empresa de bateria.

A situação da Cral também é de espera. A empresa aguarda um novo levantamento da Cetesb para confirmar a contaminação da área. Segundo o supervisor de meio ambiente, Márcio Rocha, a mesma mostra utilizada pelo órgão ambiental foi avaliada pelo laboratório da própria empresa (credenciado pelo Instituto Adolpho Lutz) e por outros dois. Somente a da Cetesb apontou contaminação em dois pontos.

“Nós entramos com uma solicitação de revisão e ela (a Cetesb) não aceitou. Fizemos um plano de remediação, mas estamos esperando o resultado de uma outra análise (por parte da Cetesb). Como não detectamos o problema, como remediá-lo?”, questiona Rocha.

Se a área estiver poluída, ela pode conter metais, como aponta relatório da Cetesb. O chumbo pode estar entre eles. A alta concentração de chumbo no organismo pode provocar saturnismo, uma doença que pode provocar até dano cerebral. Já contaminação humana em grande escala por solventes, combustíveis e PAHs (parte de um hidrocarboneto) pode provocar degeneração das células do corpo e até câncer. (LLF)