09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Olga dá à Apae projeção nacional

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 10 min

Há quase três décadas trabalhando na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Bauru, Olga Bicudo é referência para a cidade quando o assunto é assistência aos portadoras de deficiência mental e física.

A história da Apae de Bauru, que completa em janeiro 40 anos, em muitos momentos se confunde com a dessa mulher, de 76 anos. Na presidência, ela participou ativamente do desenvolvimento da entidade, que hoje atende mais de 400 alunos.

Dona de uma fé aparentemente inabalável, Olga acredita que o seu papel na Apae é fruto de uma determinação divina. Religiosidade à parte, o fato é que a instituição cresceu muito nos últimos anos, tendo à sua frente a marca de Olga Bicudo.

Entre os grandes projetos que ganharam visibilidade está a criação do Centro de Reabilitação Física, que hoje atende cerca de 200 pacientes, e o programa de profissionalização dos portadores de deficiência.

A Apae de Bauru hoje é reconhecida pelo Ministério da Saúde como uma unidade de referência nacional pelo serviço oferecido no laboratório do teste do pezinho e, em nível regional, pela Direção Regional de Saúde (DIR-10) devido ao trabalho realizado no Centro de Reabilitação Física.

Decidindo os assuntos mais delicados e burocráticos em nome da instituição, ou fazendo o trabalho de base vendendo rifas embaixo de sol para arrecadar verbas, Olga afirma dedicar atualmente 100% de suas energias ao trabalho de assistência aos portadores de deficiência.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida ao JC.

Jornal da Cidade - Quem é Olga Bicudo?

Olga Bicudo - Como eu posso falar de mim... Eu acho que eu sou uma pessoa que nasci líder, sou dinâmica, quando assumo uma responsabilidade, vou até o final. Não perco as esperanças. Por maior que seja o obstáculo, eu tenho certeza que Deus vai nos dar vitória, como tem dado até hoje. Além disso, para você obter sucesso, você tem que dar exemplo. As pessoas às vezes falam para mim: “Dona Olga, a senhora sentada aqui no Calçadão vendendo rifa?” E eu pergunto: por que não? Eu não sou diferente dos meus colaboradores e voluntários.

JC - Porque a senhora foi trabalhar na área de assistência ao portador de deficiência mental e física? Como a senhora chegou à Apae?

Olga - Na verdade, eu acredito muito na determinação de Deus. Eu sou professora de nível 1. Ingressei no magistério em 1950, percorri a zona rural, tendo uma vida sacrificada de professor, que não tinha condução, tomava chuva, atravessava cafezais. Eu fiz 12 anos de zona rural. Quando eu chegava em casa, depois do trabalho, eu não sabia se eu me alimentava ou se dormia. Foram 12 anos de muita luta. Em 1962 eu consegui ser removida para a zona urbana, para o chamado quarto grupo escolar, e me aposentei como professora. Eu planejava uma aposentadoria tranqüila, pensava em aproveitar bastante o resto da minha vida. Mas Deus reforçou minhas energias quando eu recebi o convite para integrar a Apae.

JC - De quem partiu o convite?

Olga - Eu tinha como colega de trabalho a Terezinha Aiello de Carvalho e o esposo dela era tesoureiro da Apae, seu Fernando Carvalho Pena. A Terezinha, vendo como eu era dinâmica na escola e liderava muita coisa, achou que eu tinha competência para entrar na diretoria da Apae e que eu iria conseguir levantar os fundos e formar um grupo de voluntárias. Eu senti o peso da responsabilidade porque nunca havia trabalhado nessa área social. Eu resisti a esse convite inicialmente.

JC - A senhora entrou na Apae com qual objetivo?

Olga - Eu entrei com a proposta de formar o grupo de voluntárias, ir em busca de recursos na comunidade e também divulgar a Apae porque, na época, a Apae era totalmente desconhecida na comunidade.

Eu entrei na vice-presidência e em 1982, infelizmente, depois que o nosso presidente, seu Alberto Segala, veio a falecer eu, por ordem estatutária, assumi. E aí não tive mais condições de me ausentar. Eu sempre coloquei o meu cargo à disposição para que houvesse renovação e eu não consegui isso. Ninguém aceitou. Inclusive numa das vezes que eu coloquei o meu cargo à disposição, um dos diretores fez a colocação: todos aqui podem sair da Apae menos a senhora. Então eu estou aqui por determinação mesmo (risos).

JC - A história da Olga Bicudo já se confunde com a história da própria Apae...

Olga - A Apae reflete a dona Olga, a dona Olga reflete a Apae. Formou-se um elo muito grande que não pode ser separado. Assim as pessoas colocam para mim. É uma responsabilidade muito grande.

JC - A senhora se dedica a esse trabalho em tempo integral?

Olga - Eu dedico 100% da minha vida à Apae. Olha só a minha unha, às vezes nem dá tempo de fazê-la (risos). (...) Eu aceitei o convite de entrar na Apae com a condição de que eu iria levantar fundos para a entidade, formar o grupo de voluntárias e depois eu me ausentaria. Mas eu fui me envolvendo, me envolvendo, me envolvendo. Eu tinha outras atividades, que fui abolindo, e hoje a minha vida se resume à Apae.

JC - Qual o retorno desse trabalho assistencial para a senhora?

Olga - É uma felicidade grande. Dentro desse trabalho você sai lucrando muito. A gente recebe muito mais do que doa. É gratificante trabalhar, ser útil e resolver problemas em favor de alguém que não tem condições de resolvê-lo sozinho e se apóia na gente.

JC- Como está hoje a realidade da pessoa portadora de deficiência mental e física?

Olga - Hoje a inclusão, a integração (entre o excepcional e a sociedade) está muito boa. Há uma conscientização de que o excepcional é um ser humano, é um cidadão que precisa ser respeitado como tal. Na época em que eu assumi (a Apae), era bastante difícil essa situação. Havia essa rejeição, os tabus. (...) Havia famílias que não gostavam sequer de ouvir falar na Apae. A Apae era muito rotulada. Não só o excepcional, como também a entidade era rotulada. Tinha pessoas que achavam que a Apae era formada por um amontoado de crianças, que iam lá para comer, beber, brincar, passar o dia, e não é isso. O nosso trabalho é de recuperação do usuário, da pessoa com deficiência mental, através de programas de saúde, educação e programas sociais. Antes, as pessoas não conheciam a Apae e às vezes nem sabiam que existia a Apae de Bauru.

JC - A Apae cresceu muito nos últimos anos?

Olga - A Apae cresceu espantosamente. Eu acredito que esse crescimento ocorreu através de muito trabalho, tanto das voluntárias, enfim da “família apaeana” toda. Nós temos uma equipe de trabalho excelente, muito responsável e interessada em evoluir, progredir, para estar sempre atualizada no atendimento ao portador de deficiência.

Quando eu entrei aqui, a Apae atendia cerca de 70 crianças. E nós também estávamos muito pobres de recursos. As verbas governamentais eram mínimas, como são até hoje. Se a gente fosse sobreviver com as verbas governamentais, nós não estaríamos dando esse atendimento de qualidade. Hoje, nós somos referência nacional e atendemos 400 alunos. Nós recebemos visitas de (Apaes de) Goiás, de Minas Gerais, de Mato Grosso. Eles nos procuram para que a gente passe informação para eles. Então, hoje somos referência e isso representa o quanto a gente cresceu, inclusive em credibilidade.

JC - Como a Apae de Bauru conseguiu sair do anonimato para se transformar em uma instituição de referência?

Olga - O segredo foi a liderança. Quando você lidera bem, quando tem firmeza naquilo que quer realizar e tem certeza da vitória, do sucesso, você influencia e entusiasma as outras pessoas. Foi assim que eu consegui reunir voluntárias e arrecadar recursos através de promoções, como a Feira da Bondade e os bilhetes do Festival de Prêmios. Hoje em dia esses eventos são o carro-chefe da entidade para a arrecadação de dinheiro.

JC - Quais são as maiores dificuldades enfrentadas pela entidade atualmente?

Olga - O problema ainda é recurso. Nós estamos hoje em dia equilibrados (com as finanças). Não estamos como antigamente, quando chegamos a iminência de fechar a entidade muitas vezes. Nós encontramos obstáculos, mas nunca insucesso. Mas ainda enfrentamos dificuldades. Hoje nós temos um convênio com a Saúde para o Centro de Reabilitação da Pessoa com Deficiência Física. Nós firmamos o convênio sem ter um local apropriado para atender aos pacientes, porque a gente não pensou que ia ser tão procurado. Nós começamos atendendo poucos pacientes e hoje nós atendemos 200, com uma demanda de 300 à espera. A maior dificuldade da Apae hoje é não conseguir dar conta de toda a demanda (de pessoas que procuram atendimento).

JC - A Apae sobrevive com que recursos?

Olga - Com promoções (como a Feira da Bondade e a rifa de final de ano) e verbas governamentais. Quarenta por cento das verbas da entidade são governamentais. O restante é referente a promoções e convênios, como o convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS) e a Unimed.

JC - Quais as principais conquistas da sua gestão? Os projetos de maior visibilidade desenvolvidos hoje pela entidade?

Olga - O laboratório do teste do pezinho, cujos testes realizados previnem 70% da excepcionalidade, o Centro de Reabilitação Física e o programa de profissionalização. Nesse programa, por exemplo, nós levamos o adulto ao mercado de trabalho. Então hoje nós temos muitos alunos empregados e estagiários em firmas.

No Centro de Reabilitação, nós atendemos 38 municípios e esse tratamento é gratuito. É uma prestação de serviços que fazemos para o SUS (Sistema Único de Saúde) através de faturamento. Nesse tratamento de reabilitação, nós oferecemos fisioterapia, ecoterapia, terapia ocupacional e hidroterapia.

JC- Qual a sua linha de gestão? A senhora tem uma postura centralizadora?

Olga - Não, não centralizo. Eu acho que sozinha você se perde. Principalmente agora que a entidade está muito grande, com 150 funcionários. São 400 famílias de alunos, 200 de pacientes (do Centro de Reabilitação) mais 150 de funcionários. É uma população. Então eu acho que para a gente ter sucesso não pode centralizar. A gente procura também fazer uma atualização dos funcionários. Nós pagamos cursos, fazemos questão de que eles estejam atualizados para poder oferecer um atendimento de bom nível aos nossos usuários.

JC - Qual é a importância do terceiro setor no desenvolvimento de um trabalho assistencial ao portador de deficiência?

Olga - É um trabalho fundamental. O governo não tem condições de fazer (um trabalho como esse). Nosso trabalho exige uma equipe multidisciplinar, funcionários especializados e o Estado ele não tem condições (de fazer isso).

JC - Quais são os projetos futuros da Apae?

Olga - Um desafio é construir o Centro de Reabilitação de Pessoas com Deficiência Física num prédio definitivo (hoje o prédio funciona num espaço provisório). É uma construção de 1.600 metros quadrados, avaliada em R$ 800 mil. Esse é o maior desafio da Apae hoje. (...) Nós vamos ter também futuramente a Unidade de Cuidados Diários (UCD). Nós acreditamos que em fevereiro nós vamos estar atendendo cerca de 40 crianças. Nós pretendemos também fazer a história da Apae de Bauru e editar um livro. Eu não posso me ausentar da Apae sem deixar essa história.

JC - A senhora tem planos de se ausentar da entidade?

Olga - Eu vou até onde eu conseguir, até onde Deus determinar, porque eu creio muito na determinação de Deus. Mas isso aqui faz parte da minha vida. Então a hora que eu deixar esse local vai ficar um vazio muito grande. Esse aqui é o meu segundo lar.

JC - Olga Bicudo é o nome forte da Apae. A senhora acredita que a entidade está madura para andar com os próprios pés, sem a senhora?

Olga - Eu acho difícil falar sobre isso. Porque eu acho que entra a vaidade. O ditado popular diz que ninguém é insubstituível, mas as pessoas fazem falta.