09 de julho de 2026
Saúde

'40% dos casos têm caráter emocional'

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

O número chega a assustar. De acordo com o médico dermatologista Antônio Carlos Martelli, membro do grupo de Estudos e Pesquisas Psicológicas Integradas à Dermatologia (Eppiderm), cerca de 40% dos pacientes que buscam tratamento para a pele apresentam algum fator emocional associado à alteração.

Algumas vezes, como no caso do vitiligo e da psoríase (confira detalhes no quadro abaixo), não se sabe exatamente qual é a origem do distúrbio. São doenças auto-imunes, ou seja, é o organismo agredindo a si mesmo. “Mas sabemos, com certeza, que as alterações emocionais podem desencadear crises ou agravar as lesões já existentes. É o que chamamos doenças psicofisiológicas”, afirma.

Outras vezes, o fator psicológico é o próprio agente causador do problema. “Cerca de 15% das consultas são por transtorno dismórfico corporal. Um distúrbio em que a pessoa vê defeitos que não tem ou supervaloriza pequenas imperfeições. São pessoas que procuram inúmeros especialistas e fazem até cirurgias plásticas, mas nunca ficam satisfeitas com o resultado”, descreve.

Segundo o médico, essas pessoas passam a vida toda buscando algo que não existe. Chegam a usar roupas fechadas ou acessórios para cobrir o suposto “defeito”. “Ou, em casos mais extremos, elas se isolam da sociedade, com medo

que todos vejam o que elas consideram uma deformidade”, comenta.

Outro distúrbio emocional freqüentemente associado às doenças de pele é o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), caracterizado pela mania exagerada de fazer alguma coisa. No caso das lesões de pele, identifica-se uma “mania” de agressão ao próprio corpo.

O TOC aparece, por exemplo, nas chamadas dermatites factícias (artificiais). “A pele da gente não é perfeita, ela sempre tem alguma saliência. O TOC pode fazer a pessoa procurar e cutucar repetidamente essas saliências, provocando escavações na pele”, afirma Martelli.

Então, segundo ele, a pessoa transforma poros fechados (bolinhas de gordura, cravos), espinhas, pêlos encravados, que deveriam ser lesões superficiais, em lesões profundas, que deixam marcas por longo período ou mesmo cicatrizes - aí, elas procuram um médico dizendo estar com problemas de pele.

É importante salientar que muita gente cutuca a pele, mas no caso do TOC, existe uma necessidade incontrolável (compulsiva) de se fazer isso. “Na pessoa que tem TOC, existe uma rotina, um ritual. Ela procura a saliência e coça até arrancar. Já tive pacientes que apresentavam lesões em todos os pontos do corpo onde a mão alcançava”, destaca.

Outro problema dermatológico associado ao sistema emocional citado pelo dermatologista é a tricotilomania. É um distúrbio de ansiedade em que a pessoa arranca os pêlos do corpo um a um. Também compulsivo, o hábito, em pouco tempo, começa a deixar falhas no cabelo, nas sobrancelhas, cílios e pode ser confundido com a alopécia (calvície).

Em alguns casos, a mania de arrancar os pêlos vem associada à tricotilofagia (fagia = engolir), ou seja, a pessoa arranca o fio e come em seguida. “Como esses pêlos não são dissolvidos pelo organismo, a médio prazo esse cabelo vai formando uma bola dentro do estômago, que só pode ser removida por cirurgia”, adverte Martelli.

“Imaginar que o corpo cheira mal, ter a sensação constante de que há bichos ‘andando’ pelo próprio corpo (delírio de parasitose), mania de lavar as mãos ou tomar banho - há uma infinidade de problemas em que o transtorno emocional se manifesta na pele. E quase sempre a pessoa procura vários dermatologistas, sem conseguir curar a doença. É para tratar desses pacientes que criamos o Eppiderm”, salienta.