08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

JULGAMENTO PRECIPITADO

João Batista dos Santos
| Tempo de leitura: 4 min

Chegamos a mais um final de ano, e com ele podemos avaliar o que conseguimos melhorar como pessoa ou em ganhos materiais nesse final de 2004. Em ganhos materiais, não importa se a conquista seja de pequeno ou grande valor. O que importa é valorizarmos tanto a compra de um eletrodoméstico, como de um imóvel.

Dentro de suas limitações o ser humano consegue aquilo que está ao seu alcance. Depende de quantos passos ele quer dar para frente.

Quanto a melhorar como pessoa (que é o mais difícil), devemos avaliar o nosso relacionamento e atitudes junto aos nossos familiares, parentes, companheiros de trabalho, escola ou comunidade religiosa. O ser humano tem sempre como costume, julgar primeiro o seu semelhante, mas raramente aceita ser julgado pelo seu círculo de amizade. Eis uma mensagem que serve como reflexão de nossas atitudes algumas vezes precipitadas.

Época de Natal, normalmente época de presente.

Eram dois vizinhos. O primeiro vizinho comprou um coelho para os filhos.

Os filhos do outro vizinho pediram um bichinho de estimação para o pai. O homem comprou um filhote de pastor alemão.

Conversa entre os dois vizinhos:

- Mas ele vai matar o meu coelho!

- De jeito nenhum. Imagina. O meu pastor é filhote. Vão crescer juntos. Pegar amizade. Entendo de bicho.

Não vai haver problemas.

E, parece que o dono do cachorro tinha razão. Juntos cresceram e amigos se tornaram. Era normal ver o coelho no quintal do cachorro e vice-versa. As crianças, felizes com a harmonia entre os dois animais.

Eis que o dono do coelho foi passar o final de semana na praia com a família e o coelho ficou sozinho. Isso numa sexta-feira.

No domingo de tardinha, o dono do cachorro e a família tomavam um lanche. Quando entra o pastor alemão na cozinha. Trazia o coelho entre os dentes, todo imundo, arrebentado, sujo de sangue e terra, morto. Quase mataram o cachorro de tanto agredi-lo. Dizia o homem:

- O vizinho estava certo, e agora?

A primeira reação foi agredir o cachorro, escorraçar o animal, para ver se ele aprendia um pouco de civilidade. Só podia dar nisso! Mais algumas horas os vizinhos iam chegar. E agora? Todos se olhavam. O cachorro coitado, chorando lá fora, lambendo os seus ferimentos.

- Já pensaram como vão ficar as crianças?

Não se sabe exatamente de quem foi a idéia, mas parecia infalível!

- Vamos dar um banho no coelho. Deixar ele bem limpinho. Depois a gente seca com o secador e o colocamos na casinha do seu quintal.

Como o coelho não estava muito estraçalhado, assim o fizeram. Até perfume colocaram no animalzinho. Ficou lindo, parecia vivo, diziam as crianças. E lá foi colocado, com as perninhas cruzadas, como convém a um coelho dormindo.

Logo depois ouvem os vizinhos chegarem. Notamos gritos das crianças.

Descobriram! Não passaram-se cinco minutos e o dono do coelho veio bater à porta. Branco, assustado. Parecia que tinha visto um fantasma.

- O que foi? Que cara é essa?

- O coelho... o coelho.

- O coelho o quê? O que tem o coelho?

- Morreu!

- Morreu?

- Ainda hoje à tarde parecia tão bem, disse o dono do cachorro.

- Morreu na sexta-feira!

- Na sexta?

- Foi. Antes de a gente viajar, as crianças o enterraram no fundo do quintal!

A história termina aqui. O que aconteceu depois não importa. Nem ninguém sabe. Mas o grande personagem dessa estória é o cachorro. Imagine o pobrezinho.

Desde sexta-feira, procurando em vão pelo seu amigo de infância. Depois de muito farejar, descobre o corpo morto e enterrado. O que faz ele? Provavelmente com o coração partido, desenterra o amigo e vai mostrar para os seus donos, imaginando fazer ressuscitá-lo.

O ser humano continua julgando os outros pela aparência, mesmo que tenha que deixar esta aparência como melhor lhe convém. Outra lição que podemos tirar dessa estória, é que o ser humano tem a tendência de julgar antecipadamente os acontecimentos sem antes verificar o que ocorreu realmente. Quantas vezes tiramos conclusões erradas das situações e nos achamos donos da verdade? Desejo a todo profissional deste que é o melhor jornal do nosso mundo e aos leitores da Tribuna do Leitor muitos passos à frente no ano de 2005. Saúde e paz. (João Batista dos Santos - RG 12.632.072)