09 de julho de 2026
Regional

Carta de Brasília garante retratamento

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

São Manuel - Uma carta assinada por representantes do Ministério da Saúde e de 30 organizações não-governamentais (ONGs) de todos os Estados brasileiros garante o direito ao retratamento a todos os portadores de hepatite C. Denominado “Carta de Brasília”, o documento teve como relator Francisco Martucci, presidente da ONG “C Tem Que Saber, C Tem Que Curar”, de São Manuel (69 quilômetros a sudeste de Bauru).

Até então, para conseguir se tratar da doença pela segunda vez, o interessado precisava recorrer à Justiça. Uma portaria do Ministério da Saúde garante tratamento gratuito apenas para a primeira tentativa.

Além do direito ao retratamento, a “Carta” possui ainda outros avanços importantes no sentido de amenizar a incidência e os efeitos da hepatite, que está sendo classificada como “a nova epidemia silenciosa do milênio”. De acordo com dados do Ministério da Saúde, são aproximadamente 4 milhões de infectados no Brasil.

Entre as principais conquistas estão também o fornecimento dos medicamentos necessários para tratar os efeitos colaterais dos remédios e tratamento assistido em centros de apoio espalhados pelo País.

De acordo com Martucci, que obteve a cura da doença graças ao retratamento, os efeitos colaterais provocados pelos remédios chegam a 126. “A bula (dos medicamentos) parece uma Bíblia”, compara ele.

O relator da “Carta de Brasília” comenta que já soube de casos de pessoas que cometeram o suicídio e tiveram problemas psicológicos depois que iniciaram a medicação contra a hepatite C.

Alguns efeitos, Martucci sentiu na pele, literalmente. Ele conta que a pele fica irritada, mas não é só isso. O indivíduo como um todo torna-se mais irritadiço. “A gente perde a paciência facilmente, grita por qualquer coisa”, diz.

Quanto ao tratamento assistido, a grande vantagem, na avaliação de Martucci, é o “compartilhamento da dor”. Segundo ele, a recuperação atinge um índice mais elevado quando o tratamento é feito em grupo. E é exatamente esse benefício que o tratamento assistido proporciona. O paciente é acompanhado por uma equipe de profissionais e, além disso, tem contato direto com outros infectados.

O conteúdo da “Carta” foi definido após quatro dias de discussão (12 a 15 de dezembro), em Brasília, durante o 3º Encontro Nacional das ONGs de Apoio a Portadores de Hepatites e Transplantados Hepáticos.

O evento foi patrocinado pelo Ministério da Saúde, que pagou todas as despesas dos participantes. Cada uma das 30 ONGs presentes mandaram um representante. A coordenadora nacional do Programa de Hepatite Virais, Gerusa Maria Figueiredo, também participou das discussões.

Plano de Trabalho

O documento foi entregue ao secretário nacional de Vigilância em Saúde, Jarbas Barbosa, com assinatura de todos os participantes. Agora, o governo federal tem até o início do ano para divulgar o Plano de Ação e Trabalho (PAT) com detalhes sobre o programa de combate a hepatite C.

Entre os pontos pendentes estão a relação dos 250 postos, em todo o País, onde serão realizados exames gratuitos para detecção da doença, a quantidade de kits para biópsia hepática que será disponibilizada e qual o tamanho da verba destinada ao programa em 2005.

Durante o encontro, ficou definido ainda que o governo fará uma campanha maciça nos meios de comunicação alertando para o perigo que representa a hepatite C. Haverá ainda dicas de prevenção e de como fazer o teste anti-HCV.

O principal alvo para o teste são as pessoas que passaram por transfusão de sangue antes de 1993. Antes dessa data, lembra Martucci, não havia exame para detecção do vírus da hepatite no sangue doado. Por isso, as pessoas que receberam sangue antes de 1993 formam o que hoje é chamado de “grupo de risco”.

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A doença

A hepatite viral crônica C tem uma certa semelhança com a aids quando o assunto é a transmissão da doença. Assim como o HIV, o vírus da hepatite - denominado HCV - é transmitido pelo sangue.

Apenas 20% dos infectados apresentam sintomas da doença, como olhos amarelados e urina escura. Os demais só ficam sabendo quando fazem exame de sangue para uma eventual doação, ou simplesmente não ficam sabendo.

As principais complicações da infecção crônica, a longo prazo, são a cirrose, a insuficiência hepática terminal e o carcinoma hepatocelular.

As primeiras manifestações podem ocorrer mais de dez anos após a infecção. Os sinais vão de uma simples gripe até a sensação de cansaço profundo. O risco da hepatite C ser contraída por meio de relação sexual ou da mãe para o feto é muito pequeno, segundo o médico hepatologista Giovanni Faria Silva

Somente 20% dos infectados conseguem eliminar o vírus espontaneamente. Os demais somente conseguem se livrar da doença com medicação. Se após seis meses de tratamento o vírus desaparecer, o paciente poderá ser considerado curado.